sexta-feira, 29 de maio de 2009

Me relendo

Alguns textos que escrevi há um bom tempo, quando eu tinha mais mais tempo, mais ócio, mais criatividade.

::Todo dia me sinto um pouco Raimundo Silva... mas no fim é bom.

“Considere, senhor doutor, a vida quotidiana dos revisores, pense na tragédia de terem de ler uma vez, duas, três, ou quatro, ou cinco vezes, livros que, Provavelmente, nem uma só vez o mereceriam. Fique registrado que não fui eu quem proferiu tão gravosas palavras, conheço muito bem o meu lugar na sociedade das letras, voluptuoso, sim, confesso-o, mas respeitador.”*

“Os revisores, se pudessem, se não estivessem atados de pés e mãos por um conjunto de proibições mais impositivo que o código penal, saberiam mudar a face do mundo, implantar o reino da felicidade universal, dando de beber a quem tem sede, de comer a quem tem fome, paz aos que vivem agitados, alegria aos tristes, companhia aos solitários, esperança a quem a tinha perdida, para não falar da fácil liquidação das misérias e dos crimes, porque tudo eles fariam pela simples mudança das palavras, e se alguém tem dúvidas sobre estas novas demiurgias não tem mais que lembrar-se de que assim mesmo foi o mundo feito e feito o homem, com as palavras, umas não outras, para que assim ficasse e não doutra maneira. Faça-se, disse Deus, e imediatamente apareceu feito.” (50)*

*História do Cerco de Lisboa, de José Saramago. Raimundo Silva é o coitado do protagonista da história, um reles revisor que quer se meter a autor...


::Haikais



Por este caminho,
Ninguém mais passa —
Tarde de outono.

Bashô


Penso apenas
Em meu pai e minha mãe —
Tarde de outono.

Bashô


Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se: "Agora"

Guilherme de Almeida


::Quick ones

:: IMORTALIDADE ::
Susan Hertz
Milhões de pessoas que gostariam de ganhar a imortalidade não sabem o que fazer consigo mesmas em uma tarde chuvosa de domingo.


:: A BUNCH OF MEXICANS ::
Tom Waits
I'd like to have some children. I'll probably adopt a bunch of Mexicans and live out in Pico Rivera and watch a black and white TV set with a T-shirt on and a beer in one hand and dogshit on the lawn.


:: DUAS VELAS VERDES ::
Cortázar
...e aquilo a que chamávamos o nosso amor era talvez eu estar de pé diante de você, com uma flor amarela na mão e você com duas velas verdes, enquanto o tempo soprava contra os nossos rostos uma lenta chuva de renúncias e de despedidas e passagens de metrô.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Meu tempo é enquanto


Enquanto trabalho, penso no que vou fazer à noite. Enquanto dirijo, mudo a música do rádio. Enquanto espero o pão, olho o preço da manteiga. Enquanto falo ao telefone, presto atenção ao que passa na TV. Enquanto como, leio o jornal. Enquanto tomo banho, canto Beatles. Enquanto desço as escadas do apartamento, tiro da bolsa as chaves, o crachá e o batom. Enquanto faço o almoço, olho meus e-mails. Enquanto tomo café, converso. Enquanto tomo cerveja, assisto futebol. Enquanto ponho meu filho para dormir, canto a música do ratinho. Enquanto durmo, sonho com meu filho.
E, no fim do dia, depois de tudo, ainda quero um pouco de ação.

Como pendurar um Warhol

Vídeo da banda de Rodrigo Amarante (do Los Hermanos), Frabrizio Moretti (do Strokes) e Binki Shapiro, que eu encontrei no YouTube e achei mais bacana do que o clipe oficial da música.
A Little Joy já está entre as minhas top five.



::How to Hang a Warhol::
Little Joy

Mama someday you'll be so proud of me
You'll see me hangin in a New York gallery
Someday I'm gonna drop from my left side of my brain
People are gonna ask "Is it brilliant o plain?"

But as long as I don't know
how to hang a warhol
I'll keep sketching birds
that are all I've heard of
verys simple and true
Like you know you do-do
And if you like em yeah
But if you don't it's not bad
Cause I don't really care

Said Papa someday might write a symphony
forty-eight piece and all dress up like me
I say I'll write someday the satyrs of old songs
I'm gonna chill the marrow in their bones

But as long as I can't get
into Carnagie Hall
I'll keep writing them songs
That are all mine
Very simple and dumb
Like I've always have done
And if you like em yeah
But if you don't it's too bad
Cause it's all I have
ever since I met her
I keep thinking "God,
how great it is to play a guitar"
This way I feel
that she's always with me
Cause every other song's
telling me that this time
Is about our love

terça-feira, 5 de maio de 2009

All you need is cash

Eu queria escrever aqui sobre rock e juventude, sobre minha adolescência em Pinda e minhas aulas de violão. Sobre os anos em que eu era apaixonada pelos Beatles e não sabia se eu queria aprender a tocar suas músicas ou se eu queria casar com eles... E de Beatles eu ia pra hippies, e depois achava os hippies uns burgueses que compravam drogas com o dinheiro burguês dos pais. E de Beatles ia pra Stones e de Stones para Bob Dylan, The Who e a lista não tem fim. E curtia shows de rock em cubículos minúsculos, em garagens, na casa de amigos, em churrascos, no meu quarto. E tentava tocar o violão do mesmo jeito que eles, no meu quarto. E lia tudo o que eu achasse sobre Beatles e montava mil fitinhas cassete com as músicas, álbum por álbum. Colei pôsteres no meu quarto, fiz uma camiseta que hoje nem sei onde está, decorei cada música de tanto cantar, tanto as mais conhecidas quanto as mais B-sides. E eu não entendia nada sobre fiolosofia, sociedade, nem literatura. Nunca tinha escutado bossa nova e, muito pior, nunca tinha entendido MPB. Eu simplesmente ignorava tudo o que estava à minha volta. Eu gostava de rock e queria, mesmo que instintivamente, ser inglesa. E não me passava pela cabeça o que significava eu gostar de uma música feita por brancos e para brancos, música de menino burguês de 15 anos que nunca trabalhou na vida. A única coisa que eu fazia, além de estudar numa escola burguesa, era ir aos domingos até a banca de jornais comprar o exemplar da Folha de S.Paulo para ler o caderno cultural e me achar muito culta. E ia uma vez por semana à biblioteca municipal da cidade para emprestar algum livro pesadão que certamente eu não conseguiria digerir.
Não é à toa que na adolescência desenvolvemos (tudo bem, eu desenvolvo) essas paixões por Beatles, rock, contracultura, hippies. Ser rebelede não passa de um slogan bonito e vazio, quando não se tem nada contra o que lutar. Só assim se pode acreditar em All You Need is Love.
Mas eu ainda gosto de Beatles e rock and roll. Ainda escuto All You Need is Love, mas, francamente, estou mais para All You Need is Cash, dos Rutles (antigo projeto do ex-Monty Python Eric Iddle. E bastante engraçado).

sábado, 2 de maio de 2009

Conversa de botas batidas

Obrigatória em qualquer viagem de carro. Mesmo que seja só do trabalho pra casa. Não tem nada melhor.