Eu entro em uma dessas lojas lotadas de gente e de cosméticos, e de mulheres procurando por xampu que dá volume, hidratante que alisa, creme que tira manchas da pele, etc., e percebo a imensidão de possibilidades que se esconde numa loja dessas e que, conscientemente ou não, faz tanta gente feliz. Dá pra ter cabelos pretos, castanhos, ruivos ou loiros – isso pra ficar só no básico. Dá pra ter a pele do jeito que se quer, da cor que se quer. Unhas, idem. Dá pra escolher entre ter uma barriga flácida ou comprar um daqueles cremes e ficar com um abdômen durinho. Dá pra escolher entre ter celulite ou mandá-la para o espaço usando um creme que promete diminuição de 50% na primeira semana de uso.
Enfim. São as mesmas promessas de felicidade que eu posso comprar em uma loja de roupas da moda, em um salão de beleza, em um canal de TV, em um supermercado, em uma banca de revistas. Sempre se pode pagar para que digam como se deve vestir, comer, ler, falar, pensar, ser. Pagar aos professores, o psicólogo, ao personal trainer, ao padre.
Eu entro em uma dessas lojas, olho para as pessoas e fico meio perdida. Porque mesmo estando no mesmo mundo que elas e pensando exatamente como elas (é impossível ser uma outsider completa), há algo sob a minha pele que me faz ficar desconfortável ali. Eu queria mesmo ter a pele e o cabelo que aqueles produtos me prometem, mas algo grita lá dentro de mim, me dizendo que é demais. Algo fica gritando até me cansar e lembrar que sou boa mesmo em ficar só com as minhas roupas de sempre, minhas calças jeans e minhas camisetas largas e surradas. “E eu sou assim / torta / a essa hora / assim deste jeito / com este cabelo assim, torto / desmaquiada / sapato jogado do lado da porta / os gatos em volta me perguntando umas coisas, me roçando nas pernas e você aqui sempre comigo”.

