::Todo dia me sinto um pouco Raimundo Silva... mas no fim é bom.
“Considere, senhor doutor, a vida quotidiana dos revisores, pense na tragédia de terem de ler uma vez, duas, três, ou quatro, ou cinco vezes, livros que, Provavelmente, nem uma só vez o mereceriam. Fique registrado que não fui eu quem proferiu tão gravosas palavras, conheço muito bem o meu lugar na sociedade das letras, voluptuoso, sim, confesso-o, mas respeitador.”*
“Os revisores, se pudessem, se não estivessem atados de pés e mãos por um conjunto de proibições mais impositivo que o código penal, saberiam mudar a face do mundo, implantar o reino da felicidade universal, dando de beber a quem tem sede, de comer a quem tem fome, paz aos que vivem agitados, alegria aos tristes, companhia aos solitários, esperança a quem a tinha perdida, para não falar da fácil liquidação das misérias e dos crimes, porque tudo eles fariam pela simples mudança das palavras, e se alguém tem dúvidas sobre estas novas demiurgias não tem mais que lembrar-se de que assim mesmo foi o mundo feito e feito o homem, com as palavras, umas não outras, para que assim ficasse e não doutra maneira. Faça-se, disse Deus, e imediatamente apareceu feito.” (50)*
*História do Cerco de Lisboa, de José Saramago. Raimundo Silva é o coitado do protagonista da história, um reles revisor que quer se meter a autor...
::Haikais

Por este caminho,
Ninguém mais passa —
Tarde de outono.
Bashô
Penso apenas
Em meu pai e minha mãe —
Tarde de outono.
Bashô
Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se: "Agora"
Guilherme de Almeida
::Quick ones
:: IMORTALIDADE ::
Susan Hertz
Milhões de pessoas que gostariam de ganhar a imortalidade não sabem o que fazer consigo mesmas em uma tarde chuvosa de domingo.
:: A BUNCH OF MEXICANS ::
Tom Waits
I'd like to have some children. I'll probably adopt a bunch of Mexicans and live out in Pico Rivera and watch a black and white TV set with a T-shirt on and a beer in one hand and dogshit on the lawn.
:: DUAS VELAS VERDES ::
Cortázar
...e aquilo a que chamávamos o nosso amor era talvez eu estar de pé diante de você, com uma flor amarela na mão e você com duas velas verdes, enquanto o tempo soprava contra os nossos rostos uma lenta chuva de renúncias e de despedidas e passagens de metrô.

