Poucas coisas trazem tão bem, pra mim, aquela sensação maravilhosa de viajar. Não só de viajar, mas de sair sem rumo, sem seguir um itinerário, com disposição para abraçar o que vier pela frente. Aprender, aprender, aprender. Ou seja, uma viagem em um cruzeiro universitário ou em uma excursão do tipo CVC não se encaixam nessa minha definição.
Poucas vezes fiz isso na minha vida, essa coisa de sair e abraçar tudo, com um amor tão grande por essa vida, por tudo o que existe por aí, por todas as diferenças e por todos os iguais. Dado o tempo que já vivi e o tempo que gastei viajando, penso que viajei muito pouco.
Passei momentos incríveis em Trindade e Paraty, no Rio de Janeiro, em São Paulo. Mas isso é pouco. É muito pouco perto de Kerouac e suas viagens loucas pelos Estados Unidos (os livros de Jack Kerouac são, definitivamente, o que chega mais perto do meu ideal de vida). E é o pouco perto do que Che Guevara viajou e conheceu da América Latina.
Pode parecer uma idéia boa, mas acho que, quando nos mantemos por muito tempo confinados em um lugar só, em uma atividade só, em uma rotina só, perdemos uma oportunidade incrível de sabermos mais de nós mesmos. Sair do lugar de origem pra andar por aí, pra depois voltar e se sentir um estrangeiro no próprio lugar de origem. Isso me parece ser um deslocamento não só de espaço, mas de concepção de espaço, de tempo, do que é real e do que é verdadeiro. Estar em um carro ou em uma moto, tendo como única companheira a estrada e suas listras brancas pela frente, ou estar num barco rodeado de mar, mar e mais mar. E, finalmente, a liberdade, a benção do não-pertencimento, de não dever nada a ninguém, de não ter nada, nem dinheiro, nem objetos, nem roupas, nem aparelhos inúteis, nem relógio. É uma entrega total a um estilo de vida que hoje se tornou bem difícil de se levar.
Enfim, era pra eu escrever bem menos do que escrevi. Era só pra eu ter falado um pouco do Kerouac, com alguns trechos do On the Road. De qualquer forma, aí embaixo estão eles, pra dar um gostinho. E um pouco também da Adriana Calcanhoto, uma de minhas cantoras favoritas cantando uma de minhas músicas favoritas, Maresia.
E o resto é só estrada.
Adriana Calcanhoto - Maresia
Adriana Calcanhotto - Maresia
Trechos de On the Road, de Jack Kerouac.
"Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações."
"Ele se aproximou vagarosamente: 'Ei rapazes, vocês estão indo para algum lugar específico ou apenas estão indo?'. Não entendemos bem a pergunta. Era uma pergunta boa pra cacete."
"Quando criança tinha visto um vagabundo se aproximar para pedir um pedaço de torta a sua mãe, ela lhe deu, e quando o vagabundo sumiu na estrada, o garoto, ainda pequeno, perguntou: 'Mãe, quem era esse homem?'. 'Ora, um vagabundo'. 'Mama, quando crescer também quero ser um vagabundo'."
"Pelo menos tinha aprendido a rir melhor do que qualquer pessoa no mundo, e eu percebi o quanto nos divertiríamos em Frisco."
"Daria tudo para estar no ônibus dela. Uma angústia trespassou meu coração, como sempre acontecia sempre que via uma garota pela qual estava apaixonado indo na direção oposta neste mundo grande demais. [..]
"Mas para que pensar nisso quando se tem pela frente toda a vastidão dourada da Terra e acontecimentos imprevisíveis de todos os tipos estão à espera, de tocaia, para te surpreender e te fazer ficar satisfeito simplesmente por estar vivo para presenciá-los?"
"Desejei ser Joe. Mas era apenas eu, Sal Paradise, melancólico, errando nessa escuridão violeta, naquela noite insuportavelmente encantadora, desejando poder trocar meu mundo pelo dos alegres, autênticos e extasiantes"
"Tínhamos um percurso muito maior pela frente. Mas estava tudo bem, a estrada é a vida."
"'É o mundo', disse Dean. 'Meu Deus!', uivou, batendo no volante. 'É o mundo! Podemos seguir até a América do Sul, se houver estrada. Pensa nisso!'"
"Aquilo não era ar, nunca seria - era a emanação palpável e vívida das árvores e dos pântanos."
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