terça-feira, 31 de março de 2009

O real valor das férias


É estranho pensar desta forma, mas depois de sete anos trabalhando (claro que nesses sete anos tive vários empregos diferentes), começo hoje minhas primeiras férias, no sentido mais estrito do termo. É a primeira vez que um empregador carimba minha carteira de trabalho: “você tem dez dias para fazer o que quiser, sem a obrigação de vir aqui trabalhar todos os dias”.
A sensação é, no mínimo estranha. Briga-se tanto pela liberdade e por um trabalho digno; mas, quando olho pra mim e digo “estou de férias”, realmente não sei o que fazer.
Espero que essa sensação de não saber o que fazer passe logo, ou que acabe pelo menos até uns dias antes de eu voltar a trabalhar.

Determinada a fazer, nesses dias, apenas o que eu quiser e o que me dá pleno prazer, procurei uma livraria, uma boa e grande livraria, para procurar algumas pistas. E saí de lá muito bem guarnecida: Conversas com Woody Allen, Crônicas Inéditas de Manuel Bandeira, Che Guevara – Uma Biografia e Cuba por Korda saíram de lá, de férias comigo. Saí muito contente e bem acompanhada.

E acaba que, com isso tudo, não tiro da minha cabeça questionamentos sobre vida e trabalho. Sempre valorizei muito o trabalho braçal, ou pelo menos que exija algum esforço físico, em lugar do trabalho que apenas exige esforço intelectual ou daqueles que são meramente burocráticos. É impressionante o que alguns meses de trabalho pesado, não obrigatório, podem fazer com uma pessoa. Ela pode se tornar mais esperta, vívida e mais consciente das possibilidades e dos valores que ela mesma atribui às coisas que lhe rodeiam.
Quero deixar claro que não defendo aqui o trabalho (seja físico ou intelectual) como um ideal absoluto de vida ou como algo essencialmente bom para o ser humano. O que enxergo de positivo no trabalho pesado é que ele permite uma visão mais apurada da sociedade em que vivemos. Permite que o cidadão saiba em que terreno está pisando, e como as coisas são exigidas dele pelos outros. É nesse trabalho pesado que ele vai perceber o que deve ao chefe, em troca do “salário”, vai ver que as relações sociais não são nada justas, vai ver que precisa de muitas horas de trabalho (e com trabalho vai-se o tempo, o lazer, o aprendizado e a saúde) para poder conquistar um estilo de vida que lhe permita fazer o que quer.

Foi isso que aprendi nos últimos anos, trabalhando em loja de sapatos, em café, em escola de inglês, em agência de publicidade, em centros de pesquisa. Aprendi que o trabalho em si, como o temos em nossa sociedade, não é bom ao ser humano; mas que a consciência social que se pode ter depois de se submeter a determinadas relações sociais são muito, muito valiosas. Aprendi que, por mais que eu precise do meu salário para garantir um determinado padrão de vida para minha família, nunca me engano achando que o que faço é importante, melhor do que o que outras pessoas fazem, ou que meu trabalho me dignifica (conforme aquela frase escravocrata: “o trabalho dignifica o homem”. O que me dignifica é saber relativizar o valor do que faço, saber até que ponto devo agüentar merda de alguém que se diz superior a mim, saber colocar um limite entre o que é bom e o que é degradante.

Frase espetacular, que ouvi uma vez durante uma conversa e que recordo agora, enquanto escrevo este texto: “’O trabalho dignifica o homem’. Ora, eu não quero ser um lorde!”
Ps: a foto no começo do post é o primeiro fruto positivo das minhas férias, na minha determinação de fazer apenas o que tiver vontade.

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