
Um dia desses, depois de assistir o filme Vicky Cristina Barcelona, do Woody Allen, fiquei divagando um pouco, não sobre a questão principal abordada pelo filme (a impossibilidade de se realizar e manter um amor “romântico”), mas sobre um outro ponto da história, que foi abordado de forma bem mais leve, mas que acho muito mais interessante.
Numa discussão entre Javier Bardem e Penélope Cruz (que no filme interpreta a ex-mulher do personagem de Bardem), o espanhol insistia fortemente (de uma forma que chega a ser até engraçada) que sua ex falasse em inglês, único idioma que sua namorada atual, que estava presente durante a discussão, podia entender. É como se o fato de os dois primeiros estarem discutindo em espanhol fosse um desrespeito com a garota que só sabia falar em inglês.
Como a vida imita a arte, exatamente no dia seguinte tive que me meter em uma discussão na qual não estavam falando minha língua. Ou melhor, a discussão começou em português e, por algum motivo que me foge, estava passando para o inglês. E eu, na mesma hora, me senti não só muito incomodada, mas também desrespeitada e numa enorme desvantagem. É como entrar para uma briga com espadas enquanto o oponente possui a pólvora.
O mais engraçado é que, depois de tudo, as imagens que me vinham à cabeça, enquanto eu tentava entender o meu desconforto ao ter que argumentar com alguém numa língua que não o português, eram basicamente três: Javier Bardem gritando “em inglês! Em inglês!” para Penélope Cruz; o professor Rajan proferindo uma palestra sobre políticas linguísticas, tradução e identidade na Unicamp; e o primeiro encontro entre o Montezuma e Cortéz, quando se deu a primeira conquista dos espanhóis em território asteca, sem o derramamento de uma gota de sangue sequer.


0 comentários:
Postar um comentário