terça-feira, 28 de outubro de 2008

O sistema capitalista, de Mikhail Bakunin

Um trecho fantástico em que Bakhunin ilustra em uma situação concreta o discurso do burguês-empregador em relação ao proletário (o discurso não mudou até hoje):

“Vejam bem, eu tenho um pouco de capital, que por si só nada pode
produzir, porque algo morto nada pode produzir. Nada tenho de produtivo sem o
trabalho. Assim sendo, não posso lucrar consumindo-o improdutivamente, uma vez
que, consumindo-o, eu nada mais teria. Porém, graças às instituições sociais e
políticas que nos governam e que estão todas a meu favor, na atual economia meu
capital também deve ser um produtor: ele me traz lucro. De quem esse lucro deve
ser tirado – e deve ser de alguém, uma vez que, na realidade, ele não produz
absolutamente nada por si mesmo –, não interessa a você. É o bastante, para você,
saber que ele gera lucro. Sozinho, este lucro não é suficiente para cobrir meus
gastos. Eu não sou um homem simples como você. Não posso estar, nem quero
estar, contente com pouco. Eu quero viver, morar em uma bela casa, comer e beber
bem, andar de carruagem, ter boa aparência, resumindo, ter todas as coisas boas da
vida. Eu também quero dar uma boa educação aos meus filhos, torná-los
cavalheiros, e mandá-los estudar fora, e no fim das contas, tendo recebido muito
mais educação que você, que eles possam dominá-lo algum dia, assim como eu o
domino hoje. E já que a educação por si só não é suficiente, quero deixar para eles
uma grande herança, para que, dividindo-a entre eles, permaneçam quase tão ricos
quanto eu. Conseqüentemente, além de todas as coisas boas da vida que eu quero
para mim mesmo, eu ainda quero aumentar meu capital. Como atingirei meu
objetivo? Munido desse capital, eu proponho explorá-lo, e proponho que você me
permita explorá-lo. Você trabalhará e eu recolherei, apropriar-me-ei e venderei, em
meu próprio benefício, o produto do seu trabalho, repassando a você nada mais do
que uma parte, que seja absolutamente necessária para que você não morra de
fome hoje e, no fim do dia de amanhã, ainda trabalhe para mim sob as mesmas
condições; e, quando você estiver exausto, irei jogá-lo fora e substituí-lo por
outros. Fique sabendo, pagarei a você um salário tão pequeno, e irei impor a você
uma jornada tão longa, sob condições de trabalho tão severas, tão despóticas, tão
cruéis quanto possível; não é por maldade – não é por sentir ódio de você, nem por
querer fazer algum mal a você –, mas pelo amor ao bem-estar e ao enriquecimento
rápido; porque quanto menos eu te pagar e quanto mais você trabalhar, mais eu
ganharei.”
Isto é o que diz, implicitamente, todo capitalista, todo industrial, todo
proprietário de um negócio, todo empregador que requer a força de trabalho dos
trabalhadores que contrata.

Use protetor solar

Desde que resolvi fazer uma limpeza de pele, que, digamos, acabou um pouco malsucedida, essa é a frase que tenho ouvido com maior freqüência nos últimos dias: “Use protetor solar!”. Parece que estou me preparando para uma guerra.
A tal limpeza de pele malsucedida (que no fundo foi nada mais do que uma resposta do meu corpo à minha neurose contra cravos e espinhas) me rendeu umas belas feridas no rosto. Feridas que, segundo a esteticista, em alguns dias irão secar e sumir. Isso se eu usar o protetor solar, é claro. Desde então, com a cara mais pintada do que um dálmata, já experimentei reações de todo tipo. Tem quem olhe e pergunte logo de cara: “puxa, o que aconteceu com seu rosto?” (e esses são meus eleitos, porque aí eu respondo de uma vez por todas e acabou-se o drama). Tem quem olhe para mim, faça uma cara de “meu Deus, que horror” e, depois de alguns segundos, volte a si e retome o que ia dizer antes, na maior naturalidade e dissimulação. Tem também quem me olhe e recorra ao bom humor para evitar a sensação incômoda e desconfortável: “Puxa, quem bateu em você, hein?”. E, além de todas essas reações, há aquela que, a meu ver, é a pior de todas: a pessoa me vê, e continua falando perfeitamente, como se não houvesse nada de diferente. Ela apresenta uma expressão de total normalidade, embora acabe deixando escapar, mesmo que em um detalhe bem pequeno ou por um segundo, um desconforto tão grande que não poderia ser expresso. Não quando se deve ser politicamente correto e agir conforme o protocolo.
Toda essa análise de comportamentos e reações baseada na minha limpeza de pele malsucedida parece coisa de chatola, que vive para analisar os outros. Mas a verdade é que eu não consigo evitar: essa sensação e essa necessidade de maquiar tudo o que é um pouco diferente é uma das coisas mais horríveis. A quantidade de vezes que fui aconselhada a usar protetor solar também confirma minha tese de que aquilo que é diferente do nosso padrão estético atual (e não só estético) deve ser eliminado (ora, não é minha vida ou meu bem-estar que está em jogo, e sim a terrível possibilidade de que essas terríveis manchas que hoje são temporárias acabem se tornando algo permanente, que algumas pessoas serão obrigadas e encarar – da mesma forma que são obrigadas a encarar os deficientes, os negros, os moradores de rua, as favelas).
Mas, enfim, estou bem munida para a guerra: todos os dias, antes de sair de casa e encarar o grande vilão, passo o protetor solar no rosto. E assim me protejo também do julgamento, do estranhamento e da intolerância por parte das pessoas com relação a algo que lhes é alheio. Eu me protejo contra uma possibilidade de ter algumas manchas permanentes. Meu rosto fica, literalmente, imaculado. E minha imagem também.


“Eu que moro onde o pecado mora ao lado
E me visita sempre no verão
Eu que já fui preso por porte de baseado
É baseado nisso que eu lhe digo não, não, não”
(Lar Hospitalar, de Gilberto Gil)