segunda-feira, 30 de junho de 2008

Magritte

"Num mundo onde reinam as imagens e o nosso conhecimento é inadequado, tudo tem que ser unívoco; bidimensional; certo; raso; fácil; direto; sem contradições; é da natureza da imagem ser chapada; por isso tudo tem que reproduzir a lógica binária das máquinas. Ser anjo ou demônio; bem ou mal; tudo precisa dizer o que é e o que está fora". Eugênio Bucci

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"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana." Mikhail Bakunin





domingo, 29 de junho de 2008

Diferença e tolerância

Do livro Outros Heróis e esse Graciliano, de Marilene Felinto, uma citação de Graciliano Ramos:

“Desejo de ir além das aparências, tentar descobrir nas pessoas qualquer coisa imperceptível aos sentidos comuns. Compreensão de que as diferenças não constituem razão para nos afastarmos, nos odiarmos. Certeza de que não estamos certos, aptidão para enxergarmos pedaços de verdade nos absurdos mais claros. Necessidade de compreender, e se isto é impossível, a pura aceitação do pensamento alheio.”

Desde que comecei em um novo emprego, há pouco mais de três meses, já assisti a duas palestras, digamos, motivacionais. A primeira, com uma empresária e defensora do meio ambiente. A segunda, com uma especialista de RH. Ambas discorreram sobre diferenças: diferenças entre culturas, entre gerações, entre governos, entre modelos de gestão. E, em ambas as apresentações, parecia haver uma busca por soluções, uma necessidade de transpor barreiras. Pelo menos foi a impressão que tive.

Esse é um tipo de coisa que me irrita. Digo, tratar a diferença como algo a ser solucionado, derrubado. Não seria melhor tratá-la como algo que merece interesse, curiosidade? Ou, como sugeriu Graciliano, uma aceitação de algo que é alheio?

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Déjeuner du matin

Il a mis le café dans la tasse
Il a mis le lait dans le café
Il a mis le sucre dans le café au lait
Il a tourné avec la cuiller
Sans parler
Il a allumé une cigarette
Il fait des ronds de fumée
Il a déposé la cendre dans le cendrier
Sans parler, sans me regarder
Il a mis son chapeau
Il a mis son manteau de pluie
Parce qu’il pleuvait
Il s’est levé et il est parti
Sans parole, sans même me regarder
Sans se retourner
Et moi, j’ai mis ma tête dans mes mains
Et j’ai pleuré

Jacques Prévert

O sertão é sempre mais pra lá

Estou relendo Guimarães Rosa, Primeiras Histórias, e não consigo evitar de pensar que, assim como o sertão não tem limites muito claros (todo mundo diz que o sertão é mais pra lá), poesia e prosa também não têm. Pelo menos não quando se lê Guimarães Rosa.

Se é pra entrar pra um grupo...




“Thaís, você é hippie?”, uma colega me perguntou dia desses. Fiquei parada, meio sem saber o que responder, e com um só pensamento na minha cabeça: “claro que não, eu sou é hipster!”. Bem, se é pra rotular, vamos fazer de um jeito legal, pô.

"Os hipsters só podiam ser identificados por poucas características. Eles eram inter-raciais, uma visão rara nos Estados Unidos dos anos 1950 - boêmios brancos e negros vivendo nos limites da economia, saindo juntos, especialmente para clubes de Jazz. Eles eram um pouco desleixados. [...] E eles tinham suas próprias expressões lingüísticas [...]"





terça-feira, 3 de junho de 2008

Música, cerveja, documentário e tradução



Apesar de não ser uma grande fã de tecnologia (eu gosto é do gasto, de café no bule, de máquina de escrever, de vinil etc.), admito que o youtube acabou sendo algo bom pra mim. Porque, apesar de a qualidade de som e imagem não ser grande coisa, de que outra forma eu estaria vendo, por exemplo, George Harrison e Eric Clapton tocando “C’mon in my kitchen”? Quer dizer, é uma coisa boa, pelo menos pra mim, ter um tempo pra sentar, abrir uma cerveja e beber assistindo a banda tocar e cantando baixo...

“You better come on
Into my kitchen,
Cause its going to be raining outdoors.
Yes, its going to be raining outdoors.
Yes, its going to be raining outdoors…”

Outra coisa boa, que me faz falta, e que eu raramente consigo ter: uma boa conversa, descompromissada, mas interessante. Sinto falta daquilo que, de alguma forma, era meu cotidiano durante o tempo em que fiz faculdade: sentar e conversar sobre literatura, música, arte, filosofia. Tomar um café conversando sobre cinema, assistir a boas palestras. É o tipo de coisa que, se é pretensiosa e forçada, sufoca e cansa. Mas se rola quando menos se espera, aí vale a pena e alimenta.


Filmes, livros

Nesse tempo em que o Canal Brasil está aberto, já consegui assistir a dois documentários maravilhosos: um sobre o Gilberto Gil e outro sobre as mães (que já são avós) da Praça de Maio.
Do Gil eu sou suspeita pra falar, afinal sou fã mesmo. O documentário se chama Tempo Rei e mostra desde as origens do Gil na Bahia (ô terra abençoada) até os dias atuais. E o que mais me fascina é que, o tempo todo, o homem é de uma inteligência, uma cultura e uma humildade... eu sempre aprendo quando o estou ouvindo falar.
Já o documentário das avós da Praça de Maio valeu porque eu não conhecia quase nada sobre as senhoras que até hoje se manifestam em favor de um esclarecimento dos crimes ocorridos durante a ditadura argentina. E o legal é que o documentário nem é focado tanto nelas e em sua busca por seus filhos desaparecidos, mas nas histórias dos filhos dos desaparecidos, que em boa parte não têm grandes lembranças ou memoras de seus pais, e até mesmo, por terem sido separados de seus irmãos quando novos, estão reencontrando-os nos dias de hoje. No documentário esses jovens relatam alguns desses reencontros, e esses relatos, por serem tão realistas, são bonitos demais.
A instituição das mães da Praça de Maio está passando para novas mãos, e é bom saber que ela vai continuar resistindo.


Os tradutores que não se seguram

Voltando a trabalhar com tradução, me voltam também as reflexões que eu tinha quando estudava o assunto. E lembro de coisas legais pra se ler sobre tradução, que pra mim são na verdade grandes críticas às concepções tradicionais do ato de traduzir, disfarçadas de ficção:

• "O tradutor cleptomaníaco", conto de Deszö Kosztolányi em que um tradutor surrupia muitos objetos de valor que havia no texto original e são constam no traduzido.
• "Se um viajante numa noite de inverno", romance de Ítalo Calvino em que se forma um triângulo amoroso entre o autor, a leitora e o tradutor.
• "Carta a una señorita en París", conto de Julio Cortázar em que um tradutor não consegue deixar de vomitar coelhinhos, os quais destróem a casa.
• "Pierre Menard, autor del Quijote", conto de Jorge Luís Borges sobre um escritor que tenta traduzir o Dom Quixote para o espanhol, com as mesmas palavras do original.
• "História do cerco de Lisboa", romance de José Saramago não sobre um tradutor mas um revisor que, ao cortar um "não" de uma frase, é obrigado a reescrever a história de Portugal.
De todos, meu predileto é de longe Borges, que além de criar uma crítica muito valiosa sobre a concepção mais tradicional de leitura (e toda leitura é uma tradução), põe em campo Cervantes e seu Dom Quijote, que é uma das coisas mais geniais que já li.
“... a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo,
depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente,
advertência do futuro.”