quarta-feira, 30 de abril de 2008

Condições

A bonequinha e a brutamontes.

A bonequinha e a brutamontes estão sempre brigando, a bonequinha fala francês e a brutamontes fala português. As duas são impassíveis, não aceitam dar concessões, e a briga parece eterna.

Enquanto a bonequinha se perfuma e escolhe roupas bonitinhas, a brutamontes veste um jeans velho, uma camiseta larga e desbotada, sandálias havaianas. Enquanto a bonequinha sorri, a brutamontes debocha. Enquanto a bonequinha chora, a brutamontes xinga.

A bonequinha é requintada e se interessa por cultura francesa, literatura espanhola, arte italiana. A brutamontes se interessa em música cubana, arte mexicana, cultura indiana. A bonequinha é pacifista e politicamente correta; a brutamontes é violenta, clama por revolução, gosta de anarquia. A bonequinha acredita em promessas; a brutamontes não.

A bonequinha adora filmes água-com-açúcar, programinhas românticos, cafuné, inverno. A brutamontes quer calor, que andar sozinha, falar e rir alto. A bonequinha pede uma taça de vin rouge sec enquanto a brutamontes entorna goles de cerveja e pinga. A bonequinha vai a um barzinho, com pessoas esclarecidas, cultas, com bom gosto; a brutamontes vai a um show de rock ou a um bar pra ouvir blues, com os tipos mais estranhos, não pra conversar e fazer amigos, mas pra beber e ouvir guitarras, baixos e baterias.

A bonequinha dá uma esmola ao menino de rua no sinal, a brutamontes manda o menino de rua pra casa. A bonequinha fica pasma quando lê o jornal e se pergunta aonde tudo isso vai dar. A brutamontes já sabe sem nem ter que perguntar, e quer levantar com tudo, quebrar, destruir, rasgar, romper.

E apesar da fragilidade da bonequinha e da violência da brutamontes, é sempre a primeira que domina, subjuga, imobiliza a segunda. Parece um paradoxo, mas pode-se matar com gentileza também.

*********

Bonheur Lyrique
(Manuel Bandeira)

Coeur de phtisique
O mon coeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Un bonheur qui soit comme le piteus lustucru en chiffon
[d'une enfant pauvre
- Fait par elle-même.

*********

I'm so tired
(Lennon/McCartney)

I'm so tired, I haven't slept a wink
I'm so tired, my mind is on the blink
I wonder should I get up and fix myself a drink
No,no,no.

I'm so tired I don't know what to do
I'm so tired my mind is set on you
I wonder should I call you but I know what you would do

You'd say I'm putting you on
But it's no joke, it's doing me harm
You know I can't sleep, I can't stop my brain
You know it's three weeks, I'm going insane
You know I'd give you everything I've got
for a little peace of mind

I'm so tired, I'm feeling so upset
Although I'm so tired I'll have another cigarette
And curse Sir Walter Raleigh
He was such a stupid get.

You'd say I'm putting you on
But it's no joke, it's doing me harm
You know I can't sleep, I can't stop my brain
You know it's three weeks, I'm going insane
You know I'd give you everything I've got
for a little peace of mind
I'd give you everything I've got for a little peace of mind
I'd give you everything I've got for a little peace of mind


sexta-feira, 25 de abril de 2008

Todo el poder al pueblo

"Perdoem-me os pais que se queixam de que os filhos são um fardo, de que faltam tempo, dinheiro, paciência. Receio que o fardo, o obstáculo e o estorvo a um crescimento saudável dos filhos sejam eles".

O bebê humano, dado a estreitíssima relação do diâmetro de seu crânio (inteligência) com a bacia da mãe (de bípede), é o bebê mais "prematuro" da natureza. Parece-me que é o único que não sai andando depois que nasce... Daí, que nos primeiros meses, essa “simbiose“ com a mãe é quase mesmo como o que acontece com os cangurus! Não há o que substitua o ninho com os pais e o leite da mãe para um bebê. Há uma relação de dependência tão saudável quanto é saudável a gravidez.

Às vezes, o que é difícil aceitar, principalmente na nossa cultura, é que a vinda de um filho modifique o curso da vida de uma mulher/casal. Não dá pra levar um bebê de poucos meses aos barzinhos do tempo de namoro... e muitas vezes o desmame vem em função de ter que manter o ritmo pré-família. Há alterações inerentes à nova fase de maternidade/paternidade (por isso o parto é um importante ritual de passagem, pelo qual tanto se luta hoje para passar por ele "sem sentir nada" - pula-se um evento extremamente necessário ao vínculo e ao sentido de "ter um filho"; e amamentar é outro ritual importante).

Penso que a questão é: separar bem o que é exigência da nossa fisiologia e o que é exigência da nossa cultura e que cada um encontre seu caminho ótimo, sem querer impor seu caminho ótimo à diversidade humana. Mostrar possibilidades leva ao crescimento, determinar certos e errados leva à massificação e à apatia.

Ah, sem dúvida, amamentação prolongada não é garantia de nada, a vida de qualquer criança será definida por infinitas variáveis e ter sido ou não amamentado, muito ou pouco amamentado, será apenas uma dessas variáveis.

Agora, relacionamentos patológicos existem o tempo todo, materializado em infinitas formas e dentre eles, vejo uma patologia cultural, enraizada em nosso inconsciente coletivo, de que terceirizar a função de mãe é "OK", é moderno, é vanguarda. Terceiriza-se o parto ao obstetra (cesárea), a amamentação ao leite em pó + mamadeira + chupeta e a educação dos filhos a babás, ao psicólogo e à própria escola. Só não terceirizamos a gravidez para mecanismos extracorpo porque ainda não há tecnologia que o permita. Para mim, há uma patologia coletiva a ser curada, a que leva as mulheres a valorizar sua maternidade de acordo com o tanto que sua vida permanece igual à de antes: o corpo de antes, os programas de antes, o silêncio de antes, a independência de antes. Maternidade exige dedicação. Amor não é alguma coisa que a gente sente em troca de filhos quietinhos, sorridentes, perfumados e bonzinhos, trazidos a nós por alguém que cuidou de deixá-los assim. Amor é alguma coisa que nos dispõe a lidar com as necessidades do nosso bebê, da nossa criança - e com o maior prazer do mundo. Mamar é uma dessas necessidades, e fisiológica.

Há, sim, muito preconceito e muitas decisões sendo tomadas por inércia cultural, por senso comum. A nossa natureza mamífera está tão esquecida que há quem se choque quando tem esta afirmativa diante dos olhos: somos mamíferos.

Ainda vivemos os ecos dessa onda que uma mulher possa não ter leite é uma crença arraigada que compromete a sexualidade, que enfeia, que cria dependência. Ter consciência de que amamentação é natural dá à mulher a opção de escolher. Sim, porque não devemos absolutamente condenar quem opta por não amamentar, ou por interromper o processo onde melhor lhe convier. O importante, a meu ver, é que esta opção venha de dentro dessa mulher, do confronto de informações com seu modo de vida, que não venha de fora. Que ela não deixe de amamentar porque, inconscientemente, a indústria de leite em pó lhe diz para preferir seus produtos, através de uma mídia que faz a mãe, a sogra, a vizinha, o marido, o médico, de canais de comunicação dizendo que ela não tem leite; se tem, não suficiente; se é suficiente, não é forte o bastante.

Outra idéia é que nossa cultura se choca mais com uma criança grande mamando na mãe do que um RN recebendo alimentação artificial por mamadeira. As crianças já aprendem assim, né? As bonecas vêm com o kit mamadeira, chupeta, tal. Por isso acho lindo a criança brincando de amamentar - precisamos dar esse espelho.

Autora: Roselene (retirado da PR)

domingo, 13 de abril de 2008

Eu não me canso de ler

É uma de minhas orações diárias.
O quarto e o quinto versos são dos mais bonitos que eu já li.

Poema Só para Jaime Ovalle
(Bandeira)

Quando hoje eu acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Ando bem saudosista ultimamente. Tenho lembrado de coisas de Pinda, de infância, de pessoas, músicas...
Tive uma tia incrível, brincalhona, bem humorada, engraçada, amorosa. Me chamava de perereca, e me dá uma saudade danada quando eu me lembro dela e penso que não vou mais vê-la. Ela está sempre comigo.
Tenho também amigas que estão meio longe, um longe que não é tão longe mas que impede que a gente se veja sempre que quiser. E aí ficam também as memórias. Em Pinda tinha um bar, que funcionou por pouquíssimo tempo, e ficava no meio do nada. Mas era bom. Não tinha nada de especial. Uma área coberta, com mesas e cadeiras, e uma área que parecia uma garagem, onde rolavam uns rocks. Dava pra ficar ali bebendo a noite toda, com os amigos, curtindo um som, papeando sobre besteira. Era muito bom.
Pinda é engraçada. Não tem muita coisa bacana, mas quando algo bom aparece, é bom mesmo. No último carnaval, montaram uma tenda num lugar bem pouco provável, e todas as noites eram uma festa. Mas o legal mesmo era quando juntava o povo da matiné, mais família, com o pessoal da noite. Ficava uma coisa meio heterogênea e acho que por isso era legal. Por exemplo, enquanto a banda tocava uns roques (é, rock no carnaval) uma criançada subia no palco e ficava ali brincando, pulando, sentando perto da caixa de som. Foi uma coisa até meio surrealista; até hoje não sei se foi algo espontâneo ou algum número.
Da saudade e das memórias que tenho da minha família e das minhas amigas, nem falo nada.
Hum, a TV está ligada do meu lado e acabou de passar o show que os Rolling Stones fizeram em Copacabana em 2006. Outro dia que eu não esqueço, principalmente porque não foi aquela coisa de pegar o carro, chegar lá, entrar no show e depois ir embora. Não. Foi aquela coisa de subir num ônibus um dia antes, de galera, aguentar 9 horas de viagem, com serviço de bordo medíocre. Várias paradas. Começar o dia já em Copacabana, passar o dia todo naquele clima, esperando o show, esquecendo da vida, sentada num calçadão, no meio do povo, conhecendo gente diferente, fazendo um som de roda, indo pro mar, cozendo na areia. Tomando cerveja o dia todo e vendo os camelôs passando na areia e vendendo de tudo (a gente até brincou que, mesmo antes do show, eles já deviam ter o dvd Rolling Stones em Copacabana). Foi bem legal mesmo.
Minhas memórias tem muito a ver com músicas (como acontece com muita gente). Sempre gostei de relacionar meus momentos com músicas, e de relacioná-las entre si. Sempre fui de montar fitinhas com várias canções diferentes, pra ouvir no quarto, quando eu era adolescente e gostava de enfurnar pra ler algum livro ou escrever besteiras.
Hoje meus cds tocam principalmente no carro, no caminho da creche do meu filho até o meu trabalho. Deixo meu Pierrote, aumento o volume e aí é meia hora de Chico Buarque (Cotidiano), Neil Young (Harvest Moon - maravilhosa), The Band (Ophelia), Nina Simone (I wish I knew how it would be to be free), Buddy Holly (That'll be the Day), Ney Matogrosso e Plap (A Ordem é Samba), Amy Winehuse (You Know that I'm no Good), Buddy Rich (The Beat Goes On), e até Manuel Bandeira recitando Belo Belo eu ouço enquanto dirijo. E já posso prever que, daqui a uns anos, quando eu ficar saudosista de novo e me lembrar dessa época em que estou e do meu atual emprego, essas músicas e o Belo Belo serão umas das minhas melhores memórias.

Belo Belo
Manuel Bandeira

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo -que foi? passou- de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

-Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Minha avó tinha um frasco de Chanel...

De uns tempos pra cá eu tenho parado pra observar, prestar um pouco de atenção nos velhinhos. No bairro onde moro, e particularmente no meu prédio, há muitos deles. Aqui no prédio a gente até brinca de somar a idade de todos eles ou fazer piada com a rampa que foi colocada ao lado da escadaria do hall (serve para cadeiras de rodas, macas, etc...). Tudo no bom humor. E acho que esse bom humor é o que mais me atrais nesse pessoal, digamos, mais agé.

Na praça sempre tem um senhorzinho, com uma cara muito da simpática, que todas as tardes está sentado num banco tocando gaita. Eu não faço idéia de que música seja aquela, mas dá vontade de sentar ali do lado dele e ficar só vendo a tarde passar.

Tem também uma senhorinha que eu vi atravessando a rua enquanto eu estava parada no meu carro, no sinal vermelho. Ela simplesmente atravessou na faixa, devagar, sem pressa, com seu chapéu branco, blusa listrada em azul e branco, bolsa vermelha, calça branca e sapatos bem baixinhos e vermelhos. Uma coisa linda de se ver. E muito chique.

Isso sem contar um senhor que eu sempre encontro quando vou ao supermercado, carregando meu filho no colo. Geralmente esse senhor está com uma acompanhante, e quando cruza meu caminho, ele faz sinal para a acompanhante parar, e me pergunta: “desse aí tem pra vender?”, referindo-se ao Pedro. E o mais engraçado é que ele nunca se lembra de já ter falado comigo, e sempre faz a mesma pergunta. E eu não consigo me aborrecer.

As velhinhas do meu prédio são um capítulo à parte. Superativas, estão sempre fazendo alguma atividade, carregando sacolas, subindo e descendo escadas. Todas bem sabidas, bem humoradas. E sabem cada coisa, desde advocacia até alimentação e curas naturais. É um barato sempre encontrar com elas na porta do prédio e ficar de papo.

E o que tem a ver o vidro de Chanel? É que essa é a melhor lembrança que tenho da minha avó paterna, que morava no Rio de Janeiro, e morreu há alguns anos. É claro que tenho outras lembranças boas, mas acho que a do frasco de Chanel nº5 é a mais mítica, porque eu sempre entrava no quarto dela, ainda bem nova, e olhava aquele vidro cheio de um líquido dourado, com cheiro tão bom. Estava sempre lá, sobre a penteadeira, junto com o batom cor-de-rosa antigão e os brincos de pressão (esses são antigos mesmo). E era o Chanel que me chamava a atenção, quando eu nem sabia nomes de perfumes ou quem havia sido Coco Chanel.

Hoje eu sou doida pela Coco Chanel, doida pelo Chanel nº5, e pobre demais pra comprar um. Até uso outros perfumes, já experimentei vários, mas como acho que perfume não é coisa pra gente ficar trocando e trocando, o nº5 virou meu grande predileto. Acho que é culpa da D. Yara.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

iconoclasistas.com.ar