Declaração do subcomandante Marcos:
"Marcos é gay em São Francisco, negro na África do Sul, asiático na Europa, hispânico em San Isidro, anarquista na Espanha, palestiniano em Israel, indígena nas ruas de San Cristóbal, roqueiro na cidade universitária, judeu na Alemanha, feminista nos partidos políticos, comunista no pós-guerra fria, pacifista na Bósnia, artista sem galeria e sem portfólio, dona de casa num sábado à tarde, jornalista nas páginas anteriores do jornal, mulher no metropolitano depois das 22h, camponês sem terra, editor marginal, operário sem trabalho, médico sem consultório, escritor sem livros e sem leitores e, sobretudo, zapatista no Sudoeste do México." Enfim, Marcos é um ser humano qualquer neste mundo. Marcos é todas as minorias intoleradas, oprimidas, resistindo, exploradas, dizendo ¡Ya basta! Todas as minorias na hora de falar e maiorias na hora de se calar e aguentar. Todos os intolerados procuram uma palavra. Tudo que incomoda o poder é Marcos."
quarta-feira, 26 de março de 2008
segunda-feira, 10 de março de 2008
Combustível para a vida acelerada
Dia desses me deparei com um anúncio que me deixou embasbacada. Bati o olho e fiquei ali parada, olhando aquilo e pensando, por uns 30 segundos ou mais. Juro.
O anúncio fazia parte da nova campanha da marca de roupas Diesel, chamada "Live Fast", vida acelerada, ou que quer que seja. A imagem mostra uma modelo correndo, de salto, enquanto joga talco no bumbum de um bebê.

É claro que a primeira idéia que me veio à cabeça quando vi aquilo foi de repúdio, afinal estou tão acostumada a cuidar de uma criança pequena, que sei que é necessário ter tempo, atenção e cuidado pra lidar com um bebê. Há um ano e meio que faço isso. Depois de um tempo, pensei: ora, talvez eu esteja pensando de modo errado, talvez essa campanha tenha a boa intenção de criticar nossos valores atuais e nossos hábitos diários de estar sempre correndo contra o tempo, fazendo tudo apressadamente. Porque, de fato, o mundo gira cada vez mais rápida e vertiginosamente, num movimento que não nos possibilita pensar, refletir, fruir (esse é, a meu ver, um dos piores aspectos da vida moderna, e por isso sempre fui simpatizante das idéias do chamado Slow Movement). Nesse sentido, meio que concordo com a idéia dessa peça publicitária.
Mas, pensando bem, isso não dá merito à Diesel. Isso não tira o valor negativo da sua propaganda. A marca pode ter a melhor intenção do mundo (e de boas intenções o inferno está cheio), que o anúncio continua sendo grosseiro, causa repúdio (ao menos em quem tem filhos e sabe que cuidar deles dispende tempo, carinho e afeto - o que em nada lembra a modelo correndo e enchendo a criança de talco). Sem contar que uma imagem dessa corre o risco de ter um efeito contrário: incentivar essa cultura da velocidade em certas pessoas (por incrível que pareça, tem gente que olha pro anúncio e acha bonito). É o mesmo tipo de efeito inverso que aconteceu, por exemplo, com o filme "Tropa de Elite", que alegou ter a boa intenção de denunciar problemas sociais mas acabou gerando um certo culto à violência em meio às crianças (no último Carnaval uma das fantasias mais vendidas para os pequenininhos era de colete do Bope).
Enfim, acho que um anúncio desse não se publica nem com a melhor das intenções. Acredito que os meios de comunicação e os criadores de campanhas publicitárias deviam estar mais cientes de suas responsabilidades frente ao seu público final. De uns tempos pra cá já vi anúncios com forte carga racista e outros claramente machistas. Todos de grandes marcas de roupas e acessórios eletrônicos. E em todos os casos os criadores e responsáveis pelas marcas alegam não terem tido a intenção de desrespeitarem o negro ou a mulher. Pois acho que essas pessoas deveriam pensar um pouco mais antes de "criarem" e conhecerem um pouco mais de, por exemplo, Antonioni, que mostrou no cinema que imagem sem política não é imagem no final das contas.
Ah, e pra terminar: talco faz um tremendo mal para os pulmões de bebês e crianças. Não sei como ainda tem gente que usa isso.
Outros exemplos de publicações grotescas:

Racista?

Machista?
Um ps importante
Em tempos em que as mulheres são amarradas em editoriais de moda, parece que nem o meio intelectual se salvou: até a foto clássica da Simone de Beauvoir (pois é, logo ela) foi photoshopada. Para uma publicação francesa que comemorava os 100 anos da mulher que escreveu O Segundo Sexo. A situação tá feia mesmo.
O anúncio fazia parte da nova campanha da marca de roupas Diesel, chamada "Live Fast", vida acelerada, ou que quer que seja. A imagem mostra uma modelo correndo, de salto, enquanto joga talco no bumbum de um bebê.

É claro que a primeira idéia que me veio à cabeça quando vi aquilo foi de repúdio, afinal estou tão acostumada a cuidar de uma criança pequena, que sei que é necessário ter tempo, atenção e cuidado pra lidar com um bebê. Há um ano e meio que faço isso. Depois de um tempo, pensei: ora, talvez eu esteja pensando de modo errado, talvez essa campanha tenha a boa intenção de criticar nossos valores atuais e nossos hábitos diários de estar sempre correndo contra o tempo, fazendo tudo apressadamente. Porque, de fato, o mundo gira cada vez mais rápida e vertiginosamente, num movimento que não nos possibilita pensar, refletir, fruir (esse é, a meu ver, um dos piores aspectos da vida moderna, e por isso sempre fui simpatizante das idéias do chamado Slow Movement). Nesse sentido, meio que concordo com a idéia dessa peça publicitária.
Mas, pensando bem, isso não dá merito à Diesel. Isso não tira o valor negativo da sua propaganda. A marca pode ter a melhor intenção do mundo (e de boas intenções o inferno está cheio), que o anúncio continua sendo grosseiro, causa repúdio (ao menos em quem tem filhos e sabe que cuidar deles dispende tempo, carinho e afeto - o que em nada lembra a modelo correndo e enchendo a criança de talco). Sem contar que uma imagem dessa corre o risco de ter um efeito contrário: incentivar essa cultura da velocidade em certas pessoas (por incrível que pareça, tem gente que olha pro anúncio e acha bonito). É o mesmo tipo de efeito inverso que aconteceu, por exemplo, com o filme "Tropa de Elite", que alegou ter a boa intenção de denunciar problemas sociais mas acabou gerando um certo culto à violência em meio às crianças (no último Carnaval uma das fantasias mais vendidas para os pequenininhos era de colete do Bope).
Enfim, acho que um anúncio desse não se publica nem com a melhor das intenções. Acredito que os meios de comunicação e os criadores de campanhas publicitárias deviam estar mais cientes de suas responsabilidades frente ao seu público final. De uns tempos pra cá já vi anúncios com forte carga racista e outros claramente machistas. Todos de grandes marcas de roupas e acessórios eletrônicos. E em todos os casos os criadores e responsáveis pelas marcas alegam não terem tido a intenção de desrespeitarem o negro ou a mulher. Pois acho que essas pessoas deveriam pensar um pouco mais antes de "criarem" e conhecerem um pouco mais de, por exemplo, Antonioni, que mostrou no cinema que imagem sem política não é imagem no final das contas.
Ah, e pra terminar: talco faz um tremendo mal para os pulmões de bebês e crianças. Não sei como ainda tem gente que usa isso.
Outros exemplos de publicações grotescas:

Racista?

Machista?
Um ps importante
Em tempos em que as mulheres são amarradas em editoriais de moda, parece que nem o meio intelectual se salvou: até a foto clássica da Simone de Beauvoir (pois é, logo ela) foi photoshopada. Para uma publicação francesa que comemorava os 100 anos da mulher que escreveu O Segundo Sexo. A situação tá feia mesmo.
terça-feira, 4 de março de 2008
Plenitude
Esses dias eu tava folheando uma revista, uma Marie Claire da vida (eu tento me emendar mas qual), e vi uma matéria interessante sobre gravidez. Interessante porque abordava o processo de maneira bem diferente do que se costuma ver por aí: a partir do ponto de vista da grávida de primeira viagem. Ou seja, nada daquelas velhas dicas que a gente encontra em qualquer página da internet, tipo: você vai ter apetite em dobro, pode ter desejos, vertigens e tals. O que a matéria apresentava era uma série de dicas de uma jornalista que está passando por uma gravidez e que tem percebido aqueles detalhes que são superpessoais e que a gente não encontra publicado em lugar nenhum. E aí eu comecei a lembrar das minhas descobertas superpessoais durante o tempo em que carreguei o Pedro na barriga.
- O sono é matador. Depois do almoço então, nem se fala.
- Eu fiquei tarada por água. Não, não era sede, nem estava passando calor. O que me agradava era ouvir barulho de água, ver água, senti-la escorrrendo pelas mãos.... É um treco doido demais, eu me perguntava de onde vinha aquilo, me sentia uma ET.
- Olfato super-extra-aguçado. Eu tinha, sim, os enjôos só de sentir o cheiro da cera que o zelador passava no corredor do andar em que eu morava, mas em compensação, tinha um prazer absurdo em sentir cheiros de ervas e perfumes. Não preciso nem dizer que tomava mil chás, e até um artefato de ervas pra prender no chuveiro e improvisar um banho-de-deusa eu arranjei. E era uma maravilha! Lembro uma vez de passar por um outdoor e ver uma propaganda de um creme hidratante, acho que Dove, em que havia a imagem de um copo com gelo e umas folhas verdes e a frase "Aguce seus sentidos". Eu olhei praquilo e ri comigo: "ah, esse povo não sabe o que é ter os sentidos aguçados".
- Um desejo enorme de levar a vida do jeito mais natural possível. Acho que minha gravidez foi a época em que fui mais alternativa e radical nessa opção: eu não queria remédios, perfumes, maquiagem. Não ficava neurótica por fazer exames e mais exames. Me alimentava superbem. Me sentia linda e de bem com a vida (não tive muitos ataques histéricos e mudanças de humor repentinas). Tentava aproveitar ao máximo os meus momentos de ócio pra conversar com o Pedro, cantar pra ele, tomar sol no barrigão e esperar a natureza fazer efeito.
- Por falar em natureza fazendo efeito, a cesariana estava fora dos meus planos desde o início. Eu confiei muito no meu corpo e na natureza pra saber que o parto aconteceria na melhor hora para o meu corpo e para o Pedro, mesmo que demorasse. Confiava que nenhum corpo pode gerar algo que não pode expelir (essa história de que fulana teve que fazer cesária porque o bebê era muito grande ou porque não tinha abertura é mito, papo furado, no existe).
- O melhor da gravidez: criei em mim uma conciência feminista que nunca tinha tido antes. Me toquei de coisas que antes estavam anos-luz à minha frente. E me tornei uma feminista incurável, que certa vez, andando com o barrigão pela rua, viu um passou por uma magrela na rua, tipo aquelas modeletes anoréxicas, e pensou sinceramente: "coitada, parece tão vazia...". Vazia, no melhor sentido da palavra, porque eu me sentia plena.
- O sono é matador. Depois do almoço então, nem se fala.
- Eu fiquei tarada por água. Não, não era sede, nem estava passando calor. O que me agradava era ouvir barulho de água, ver água, senti-la escorrrendo pelas mãos.... É um treco doido demais, eu me perguntava de onde vinha aquilo, me sentia uma ET.
- Olfato super-extra-aguçado. Eu tinha, sim, os enjôos só de sentir o cheiro da cera que o zelador passava no corredor do andar em que eu morava, mas em compensação, tinha um prazer absurdo em sentir cheiros de ervas e perfumes. Não preciso nem dizer que tomava mil chás, e até um artefato de ervas pra prender no chuveiro e improvisar um banho-de-deusa eu arranjei. E era uma maravilha! Lembro uma vez de passar por um outdoor e ver uma propaganda de um creme hidratante, acho que Dove, em que havia a imagem de um copo com gelo e umas folhas verdes e a frase "Aguce seus sentidos". Eu olhei praquilo e ri comigo: "ah, esse povo não sabe o que é ter os sentidos aguçados".
- Um desejo enorme de levar a vida do jeito mais natural possível. Acho que minha gravidez foi a época em que fui mais alternativa e radical nessa opção: eu não queria remédios, perfumes, maquiagem. Não ficava neurótica por fazer exames e mais exames. Me alimentava superbem. Me sentia linda e de bem com a vida (não tive muitos ataques histéricos e mudanças de humor repentinas). Tentava aproveitar ao máximo os meus momentos de ócio pra conversar com o Pedro, cantar pra ele, tomar sol no barrigão e esperar a natureza fazer efeito.
- Por falar em natureza fazendo efeito, a cesariana estava fora dos meus planos desde o início. Eu confiei muito no meu corpo e na natureza pra saber que o parto aconteceria na melhor hora para o meu corpo e para o Pedro, mesmo que demorasse. Confiava que nenhum corpo pode gerar algo que não pode expelir (essa história de que fulana teve que fazer cesária porque o bebê era muito grande ou porque não tinha abertura é mito, papo furado, no existe).
- O melhor da gravidez: criei em mim uma conciência feminista que nunca tinha tido antes. Me toquei de coisas que antes estavam anos-luz à minha frente. E me tornei uma feminista incurável, que certa vez, andando com o barrigão pela rua, viu um passou por uma magrela na rua, tipo aquelas modeletes anoréxicas, e pensou sinceramente: "coitada, parece tão vazia...". Vazia, no melhor sentido da palavra, porque eu me sentia plena.
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