segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Balada de John e Yoko



Esse é o trecho que tirei do livrão Beatles Anthology, em que John Lennon fala sobre sua relação com Yoko Ono. Coloco aqui porque achei incrível como naquela época os dois já tinha na cabeça conceitos (praticavam esses conceitos) que até hoje são dificilmente respeitados e praticados. Sem contar que é uma linda declaração de amor.

"Yoko me ensinou sobre as mulheres. Eu estava habituado a ser servido, como Elvis e muitos astros estavam. Sendo sempre servido por mulheres, fosse por minha tia Mim, ou quem quer que fosse – servido por mulheres, esposas, namoradas. Você cai na bebedeira e espera que alguma namorada na universidade faça o café na manhã seguinte. Você sabe que ela também estava bêbada feito um gambá, com você na festa, mas supõe-se que a mulher deva passar subitamente para o outro lado do balcão. Foi uma experiência e tanto e eu agradeço o que as mulheres fizeram por mim durante toda a minha vida. Eu nem sequer havia pensado no assunto.
Yoko não aceitava isso. Ela não dava a mínima para os Beatles: “Que porra são os Beatles? Eu sou Yoko Ono!Trate-me como eu”. Desde o dia em que a conheci, ela exigiu tempo igual, espaço igual, direitos iguais. Eu não sabia do que ela estava falando. Eu disse: “O que você quer? Um contrato? Você pode ter o que quiser – mas não espere nada de mim, ou que eu mude em algum sentido”. “Bem”, disse ela, “a resposta a isso é que eu não posso ficar aqui, porque não há espaço onde você está. Tudo gira em torno de você e eu não posso respirar nessa atmosfera”. Sou grato a ela pela educação.
Eu estava habituado a uma situação em que o jornal estava ali para eu ler e depois que o lia, alguém mais podia ficar com ele. Não me ocorria que alguém mais pudesse querer lê-lo primeiro. Acho que é isso que mata gente como Presley e outros dessa espécie. O rei é sempre morto por seus cortesãos, não por seus inimigos. O rei é superalimentado, superdrogado, supersaciado; qualquer coisa para manter o rei amarrado ao seu trono. A maioria das pessoas nessa situação jamais desperta. Ou morrem mentalmente ou morrem fisicamente, ou ambos. E o que a Yoko fez por mim foi me libertar dessa situação."

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

No ap de Woody Allen

Há um pouco mais de um ano, mudei de apartamento. Eu morava numa kitnete pequena e escura numa rua barulhenta, e mudei para um apartamento incrível: parecia ter uns 60 anos, chão de taco meio desgastado, janelas e portas de madeira daquelas bem sólidas, pesadas... O banheiro era revestido de azulejo branco até metade da parede, o quarto tinha uma janela enorme, também muito antiga. E o melhor: tudo branco - portas, janelas, paredes rodapés... uma maravilha para quem tinha recém saído de um ap que mais parecia um buraco negro. Além de tudo isso, é super bem localizado.
Pois bem, de lá pra cá, o ap já não está mais tão branco, as paredes já exibem a arte abstrata do meu filho (quando me mudei pra cá estava grávida de 3 meses), os tacos estão todos soltando e alguns pontos de umidade aparecem no teto e nas paredes. Já tivemos mil vazametos, infiltrações, chuveiro queimado (sou expert em trocar resistência), torneira quebrada, cano entupido, fio queimando e todas aquelas coisas que acontecem quando se mora num apartamento antigo.
Agora queremos nos mudar de novo. E aí a gente pensa num ideal de apartamento (pelo menos eu penso): algo que não seja caro; que seja antigo e charmoso, mas que não esteja caindo aos pedaços; um lugar espaçoso; um lugar bem iluminado; um lugar sem baratas; um lugar que tenha como vizinhos um banco, um supermercado, uma padaria, uma praça, um teatro, um cinema, um bar, lojas de decoração, móveis e chocolate. Difícil, né?

Itens para o apartamento ideal:
- Iluminação como a da casa do John Lennon em "Imagine";
- banheiro branco e bagunçado como o da Carrie em "Sex and the City";
- quadros lindos, prateleiras e mais prateleiras de livros discos & cds garrafas de vinho como os dos filmes de Woody Allen.

Artigo bacana sobre os cenários de Woody Allen

Ouvindo ultimamente:

The Beat Goes On, de Buddy Rich, um baterista de smooth jazz. A música é muito, muito, muito boa. Pena que a qualidade de som e vídeo é zero.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Quiet Beatle



Sempre achei meio besta a idéia de escolher uma música preferida, uma banda preferida, uma pessoa preferida. Me faz lembrar aqueles caderninhos de perguntas que a gente tinha no ginásio, e que fazia todos os colegas da sala responderem. Eu tinha um e não sei onde foi parar. Eu devia ter guardado, ia dar umas boas risadas.
De qualquer forma, essa coisa de escolher me parece meio ingênua ou boba, mas quando se trata de uma beatlemaníaca e quando o assunto é Beatles, eu tenho um preferido: o George.
Lembro agora de um diálogo no filme "Vanilla Sky", em que o psiquiatra e o seu cliente estão conversando, e o psiquiatra falando sobre as coisas que acontecem na vida, como a gente amadurece, deixa de ser "rebelde" pra virar "família". E aí ele diz: "O seu beatle favorito era o John, e agora é o Paul". E o cliente responde: "Eu sempre gostei do George".
Gosto desse trecho do filme justamente por essa coisa inusitada de mostrar o George, um cara que fazia parte de uma puta banda mas que ficava ofuscado pelo John e pelo Paul, como figura de destaque. A gente quase nunca vê isso. É engraçado.
O George esse ano faria 65. Lembro de quando ele morreu e eu fiquei meio estranha por uma semana. Lembro de quando finalmente consegui tocar "Something" direitinho no meu violão (depois disso era só essa música o tempo todo pela casa).
Aí embaixo a versão acústica de "While my Guitar Gently Weeps". Eu amo essa versão, sem a guitarrinha estridente do Eric Clapton no original.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

E a chocolateria vira café

Uma loja que vendia bombons, chocolates etc daqui de perto de casa de repente fechou as portas. Foi uma pena, porque eu adorava aquela loja. Não era tanto os chocolates que eu adorava, e sim a presença daquela loja ali perto da minha casa, pois embora eu não comprasse ali constantemente, sabia que os bombons mais gostosos do mundo estavam ali e que eu podia ir lá comprá-los na hora que quisesse e sentisse vontade. Podia ir lá no meio da tarde e pedir um bombonzinho de cappuccino ou uma barrinha de chocolate com pimenta ou até um camafeu, que pra mim é a perdição ("Meu reino por um camafeu").
Pois bem, depois de umas semanas vendo da minha janela aquela loja fechada e sendo toda quebrada, vi uma faixa: "Estamos em reforma. Em breve, chocolate e café."
Ah, acho que nunca mais me mudo desse prédio.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Modelos

Outro dia estava eu lendo uma dessas revistas "femininas", sei lá se era Cláudia ou Nova ou Elle (eu sei que elas não prestam, mas nesse ponto eu sou como a Miranda de Sex and the City: qundo abro minhas revistas, nada mais existe...), e vi uma mini reportagem sobre "mulheres francesas". O texto tentava desvendar o que tornava essas sortudas tão lindas, magras e chics. Entre outras coisas, descobri que o corte de cabelo das très chics é aquele chanel com franja reta sobre a testa, a sombra é verde-musgo (mas esse já era meu tom predileto muito antes de eu ler a revista) e as porções de comida são mínimas (quer dizer, comem de tudo, mas pouco). Apesar de eu simpatizar com o corte chanel, a sombra verde e com alimentação saudável ao invés de loucuras de academia+plásticas, enquanto eu lia o texto lembrei da Fanny Ardant, atriz francesa com seus bons 58 anos. Nunca vi Fanny Ardant usando chanelzinho (pelo contrário, tem uma cabeleira volumosa e ondulada), sombra verde e seu físico não é do tipo magérrimo. Apesar disso, a mulher é linda de morrer, livre, inteligente (um ser que foi casado com Truffaut tem que ser no mínimo inteligente), atriz maravilhosa e elegantérrima, dando de dez em qualquer Kate Moss ou Sienna Miller. E isso me fez pensar: mas por que raios os homens preferem uma Sienna Miller a uma Fanny Ardant?
Algumas conclusões, baseadas em fatos que eu presenciei ultimamente: esse lance de conquista é todo um jogo de poder, em que o "melhor homem da safra" tem que pegar "a mais gostosa". Ou seja, o bonitão e a bonitona ficam juntos, até que um desencane, ou finja estar desencanado, para então ter o outro na palma da sua mão. Porque esse jogo também tem essa regra: pise, e quanto mais pisar, mais o outro estará apaixonado e mais vai querer ser pisado. E, se por algum milagre o pisado resolver desencanar, a situação se inverte: quem estava em vantagem se sente agora inferior, e quem antes era pisado agora tem o controle total da situação (dá pra entender isso ouvindo a música Conquest, do White Stripes, e assistindo ao clipe, que é fantástico).
Hum, enfim, dá uma canseira só de escrever sobre essa coisa toda. Só de pensar em tudo que esse jogo de poder acarreta: supervalorização de bíceps, bundas e peitos, atrofia cerebral, baixa auto-estima, mulheres se vestindo como palhaças para parecerem sexy... É isso que eu vejo nessas modelos superexpostas, em patricinhas com tempo livre, que têm como modelo Sienna Miller. E que são totalmente o oposto do que se vê na Fanny Ardant.
Tomara que quando eu estiver com meus 40, tenha mais a ver com a Fanny Ardant do que com a Sienna Miller...


Fanny Ardant, très chic


???

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Pra um dia de chuva:

Lover, you should've come over
Jeff Buckley

Uma música que é das minhas preferidas pra tocar no violão, pra ouvir tomando vinho ou dirigindo sozinha e cantando com meu gogó-que-ninguém-merece... Segue a tradução, porque a letra também é maravilhosa. Pena Jeff Buckley ter morrido tão jovem.



Olhando pela porta, eu vejo a chuva cair sobre os seguidores do funeral

Desfilando, num velório de tristes relações, enquanto seus sapatos se enxarcam com a água

Talvez eu seja jovem demais
Pra impedir um bom amor de desandar
Mas esta noite eu só tenho você na minha cabeça(e você sequer desconfia disso)

Estou completamente acabado e faminto por seu amor
mas sem jeito de saciar essa fome
Onde está, minha criança? Você sabe o quanto eu preciso

Jovem demais pra suportar e velho demais pra jogar tudo pro alto

Às vezes um homem perde o rumo
Quando ele acha que o melhor que faz é se divertir
Cego demais pra perceber as besteiras que faz...
Às vezes um homem tem que acordar pra vida e se mancar que ele
Não tem ninguém...

Então eu esperarei por você, esperarei ansiosamente
Terei a chance de ver o seu doce retorno? Ah, será que aprenderei um dia?
Amor, você deveria voltar
Porque ainda dá tempo

O quarto é solitário e a cama está pronta
A janela aberta deixa a chuva entrar
Ardendo no canto está o único que ainda sonha. Sonha com você por perto

Meu corpo se contorce e implora por um descanso que nunca virá
Ainda não acabou, dou meu reino por mais um beijo nela...
Ainda não acaboou, toda minha fortuna pelos sorrisos dela quando eu dormia em seus braços...
Ainda não acabou, todo meu sangue pela doçura da gargalhada dela
Ainda não acabou, ela é a lagrima que escorre da minha alma eternamente...

Talvez eu seja jovem demais pra impedir um bom amor de desandar...
Oh... meu amor, você deveria voltar... Porque ainda dá tempo...

Sim, eu sinto que sou muito jovem pra suportar tudo isso, mas velho demais pra jogar tudo pro alto
Muito burro, surdo, cego pra perceber o estrago que causei
Doce amor, você deveria voltar
Oh amor, eu vou te esperar
Amor, você deveria voltar
Porque ainda dá tempo...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Pós-carnaval

Eu dou risada só de lembrar: em uma cena do That 70's Show, os quatro amigos estão fumando maconha, em um daqueles momentos em que idéias "incríveis" começam a surgir, e tudo é genial, e vários insights acontecem, e tudo tem uma explicação. O Eric Foreman chega até a falar: "Cara, isso é genial, pena que não lembro de nada depois... eu tenho que pegar meu gravador". E aí eles gravam toda a besteirada pra mais tarde ouvirem e constatarem que, lógico, era tudo baboseira.
Dia desses eu tive um momento desses. Numa dessas madrugadas de carnaval, eu voltava dirigindo pra casa, e com muita coisa na cabeça. Como o meu entorpecente foi a cerveja e não a maconha, até que consigo lembrar de algumas coisas. Tipo:
- As pessoas gastam tempo, suor e energia demais pra conseguirem um relacionamento bacana, principalmente as mulheres. É tanto esforço pra achar um cara decente (e nem precisa ser perfeito), e muitas vezes em vão... O carnaval é uma época ótima pra se perceber isso: tá todo mundo atrás de alguém pra beijar, abraçar, ir pra cama e quem sabe namorar e casar. É tudo uma luta, um jogo, uma disputa, um mal necessário.
- Nada é nosso. Tudo que você pensa ser seu vai ser perder um dia, seja livros, roupas, cds, casa, apartamento, namorado... até os filhos ficam com a gente por um tempo e depois caem no mundo.
- Big brother nem é tão rui assim.
- Com filosofia a gente enxerga o mundo de maneira mais inteligente, mas com literatura a gente enxerga o mundo de maneira mais gostosa.
- Um cara que canta "Masters of War" e critica a ganância dos senhores da indústria bélica não deveria cobrar R$ 900,00 por uma noite de show. É estranho. Os tempos mudam. Até o Bob Dylan muda.
- Aquela Ângela Bismarc (acho que é esse o nome da infeliz) não devia fazer tanta plástica. Acho que ela não devia nem falar tanta besteira.
- Cada vez menos pessoas têm a capacidade de perceber o outro. Digo, não só ouvir, mas se interessar realmente, seja pelos problemas, pelas idéias ou pela vida do outro. Dar a oportunidade ao outro de ser compreendido. Eu sempre gostei de ouvir (mais do que de falar), porque assim é mais fácil encontrar coisas interessantes, tipo uma vizinha velhinha que sabe tudo sobre alimentação natural, ou um vizinho que viajou para o México, ou uma amiga que sabe usar direito os recursos do celular que eu tenho, ou um conhecido que sabe que estão contratando professores de português lá na Venezuela e por aí vai...

Trilha sonora: Icky Thump, do White Stripes.