terça-feira, 28 de outubro de 2008

Use protetor solar

Desde que resolvi fazer uma limpeza de pele, que, digamos, acabou um pouco malsucedida, essa é a frase que tenho ouvido com maior freqüência nos últimos dias: “Use protetor solar!”. Parece que estou me preparando para uma guerra.
A tal limpeza de pele malsucedida (que no fundo foi nada mais do que uma resposta do meu corpo à minha neurose contra cravos e espinhas) me rendeu umas belas feridas no rosto. Feridas que, segundo a esteticista, em alguns dias irão secar e sumir. Isso se eu usar o protetor solar, é claro. Desde então, com a cara mais pintada do que um dálmata, já experimentei reações de todo tipo. Tem quem olhe e pergunte logo de cara: “puxa, o que aconteceu com seu rosto?” (e esses são meus eleitos, porque aí eu respondo de uma vez por todas e acabou-se o drama). Tem quem olhe para mim, faça uma cara de “meu Deus, que horror” e, depois de alguns segundos, volte a si e retome o que ia dizer antes, na maior naturalidade e dissimulação. Tem também quem me olhe e recorra ao bom humor para evitar a sensação incômoda e desconfortável: “Puxa, quem bateu em você, hein?”. E, além de todas essas reações, há aquela que, a meu ver, é a pior de todas: a pessoa me vê, e continua falando perfeitamente, como se não houvesse nada de diferente. Ela apresenta uma expressão de total normalidade, embora acabe deixando escapar, mesmo que em um detalhe bem pequeno ou por um segundo, um desconforto tão grande que não poderia ser expresso. Não quando se deve ser politicamente correto e agir conforme o protocolo.
Toda essa análise de comportamentos e reações baseada na minha limpeza de pele malsucedida parece coisa de chatola, que vive para analisar os outros. Mas a verdade é que eu não consigo evitar: essa sensação e essa necessidade de maquiar tudo o que é um pouco diferente é uma das coisas mais horríveis. A quantidade de vezes que fui aconselhada a usar protetor solar também confirma minha tese de que aquilo que é diferente do nosso padrão estético atual (e não só estético) deve ser eliminado (ora, não é minha vida ou meu bem-estar que está em jogo, e sim a terrível possibilidade de que essas terríveis manchas que hoje são temporárias acabem se tornando algo permanente, que algumas pessoas serão obrigadas e encarar – da mesma forma que são obrigadas a encarar os deficientes, os negros, os moradores de rua, as favelas).
Mas, enfim, estou bem munida para a guerra: todos os dias, antes de sair de casa e encarar o grande vilão, passo o protetor solar no rosto. E assim me protejo também do julgamento, do estranhamento e da intolerância por parte das pessoas com relação a algo que lhes é alheio. Eu me protejo contra uma possibilidade de ter algumas manchas permanentes. Meu rosto fica, literalmente, imaculado. E minha imagem também.


“Eu que moro onde o pecado mora ao lado
E me visita sempre no verão
Eu que já fui preso por porte de baseado
É baseado nisso que eu lhe digo não, não, não”
(Lar Hospitalar, de Gilberto Gil)

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