Um trecho fantástico em que Bakhunin ilustra em uma situação concreta o discurso do burguês-empregador em relação ao proletário (o discurso não mudou até hoje):
“Vejam bem, eu tenho um pouco de capital, que por si só nada pode
produzir, porque algo morto nada pode produzir. Nada tenho de produtivo sem o
trabalho. Assim sendo, não posso lucrar consumindo-o improdutivamente, uma vez
que, consumindo-o, eu nada mais teria. Porém, graças às instituições sociais e
políticas que nos governam e que estão todas a meu favor, na atual economia meu
capital também deve ser um produtor: ele me traz lucro. De quem esse lucro deve
ser tirado – e deve ser de alguém, uma vez que, na realidade, ele não produz
absolutamente nada por si mesmo –, não interessa a você. É o bastante, para você,
saber que ele gera lucro. Sozinho, este lucro não é suficiente para cobrir meus
gastos. Eu não sou um homem simples como você. Não posso estar, nem quero
estar, contente com pouco. Eu quero viver, morar em uma bela casa, comer e beber
bem, andar de carruagem, ter boa aparência, resumindo, ter todas as coisas boas da
vida. Eu também quero dar uma boa educação aos meus filhos, torná-los
cavalheiros, e mandá-los estudar fora, e no fim das contas, tendo recebido muito
mais educação que você, que eles possam dominá-lo algum dia, assim como eu o
domino hoje. E já que a educação por si só não é suficiente, quero deixar para eles
uma grande herança, para que, dividindo-a entre eles, permaneçam quase tão ricos
quanto eu. Conseqüentemente, além de todas as coisas boas da vida que eu quero
para mim mesmo, eu ainda quero aumentar meu capital. Como atingirei meu
objetivo? Munido desse capital, eu proponho explorá-lo, e proponho que você me
permita explorá-lo. Você trabalhará e eu recolherei, apropriar-me-ei e venderei, em
meu próprio benefício, o produto do seu trabalho, repassando a você nada mais do
que uma parte, que seja absolutamente necessária para que você não morra de
fome hoje e, no fim do dia de amanhã, ainda trabalhe para mim sob as mesmas
condições; e, quando você estiver exausto, irei jogá-lo fora e substituí-lo por
outros. Fique sabendo, pagarei a você um salário tão pequeno, e irei impor a você
uma jornada tão longa, sob condições de trabalho tão severas, tão despóticas, tão
cruéis quanto possível; não é por maldade – não é por sentir ódio de você, nem por
querer fazer algum mal a você –, mas pelo amor ao bem-estar e ao enriquecimento
rápido; porque quanto menos eu te pagar e quanto mais você trabalhar, mais eu
ganharei.”
Isto é o que diz, implicitamente, todo capitalista, todo industrial, todo
proprietário de um negócio, todo empregador que requer a força de trabalho dos
trabalhadores que contrata.


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