
Apesar de não ser uma grande fã de tecnologia (eu gosto é do gasto, de café no bule, de máquina de escrever, de vinil etc.), admito que o youtube acabou sendo algo bom pra mim. Porque, apesar de a qualidade de som e imagem não ser grande coisa, de que outra forma eu estaria vendo, por exemplo, George Harrison e Eric Clapton tocando “C’mon in my kitchen”? Quer dizer, é uma coisa boa, pelo menos pra mim, ter um tempo pra sentar, abrir uma cerveja e beber assistindo a banda tocar e cantando baixo...
“You better come on
Into my kitchen,
Cause its going to be raining outdoors.
Yes, its going to be raining outdoors.
Yes, its going to be raining outdoors…”
Outra coisa boa, que me faz falta, e que eu raramente consigo ter: uma boa conversa, descompromissada, mas interessante. Sinto falta daquilo que, de alguma forma, era meu cotidiano durante o tempo em que fiz faculdade: sentar e conversar sobre literatura, música, arte, filosofia. Tomar um café conversando sobre cinema, assistir a boas palestras. É o tipo de coisa que, se é pretensiosa e forçada, sufoca e cansa. Mas se rola quando menos se espera, aí vale a pena e alimenta.
Filmes, livros
Nesse tempo em que o Canal Brasil está aberto, já consegui assistir a dois documentários maravilhosos: um sobre o Gilberto Gil e outro sobre as mães (que já são avós) da Praça de Maio.
Do Gil eu sou suspeita pra falar, afinal sou fã mesmo. O documentário se chama Tempo Rei e mostra desde as origens do Gil na Bahia (ô terra abençoada) até os dias atuais. E o que mais me fascina é que, o tempo todo, o homem é de uma inteligência, uma cultura e uma humildade... eu sempre aprendo quando o estou ouvindo falar.
Já o documentário das avós da Praça de Maio valeu porque eu não conhecia quase nada sobre as senhoras que até hoje se manifestam em favor de um esclarecimento dos crimes ocorridos durante a ditadura argentina. E o legal é que o documentário nem é focado tanto nelas e em sua busca por seus filhos desaparecidos, mas nas histórias dos filhos dos desaparecidos, que em boa parte não têm grandes lembranças ou memoras de seus pais, e até mesmo, por terem sido separados de seus irmãos quando novos, estão reencontrando-os nos dias de hoje. No documentário esses jovens relatam alguns desses reencontros, e esses relatos, por serem tão realistas, são bonitos demais.
A instituição das mães da Praça de Maio está passando para novas mãos, e é bom saber que ela vai continuar resistindo.
Os tradutores que não se seguram
Voltando a trabalhar com tradução, me voltam também as reflexões que eu tinha quando estudava o assunto. E lembro de coisas legais pra se ler sobre tradução, que pra mim são na verdade grandes críticas às concepções tradicionais do ato de traduzir, disfarçadas de ficção:
• "O tradutor cleptomaníaco", conto de Deszö Kosztolányi em que um tradutor surrupia muitos objetos de valor que havia no texto original e são constam no traduzido.
• "Se um viajante numa noite de inverno", romance de Ítalo Calvino em que se forma um triângulo amoroso entre o autor, a leitora e o tradutor.
• "Carta a una señorita en París", conto de Julio Cortázar em que um tradutor não consegue deixar de vomitar coelhinhos, os quais destróem a casa.
• "Pierre Menard, autor del Quijote", conto de Jorge Luís Borges sobre um escritor que tenta traduzir o Dom Quixote para o espanhol, com as mesmas palavras do original.
• "História do cerco de Lisboa", romance de José Saramago não sobre um tradutor mas um revisor que, ao cortar um "não" de uma frase, é obrigado a reescrever a história de Portugal.
De todos, meu predileto é de longe Borges, que além de criar uma crítica muito valiosa sobre a concepção mais tradicional de leitura (e toda leitura é uma tradução), põe em campo Cervantes e seu Dom Quijote, que é uma das coisas mais geniais que já li.
“... a verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo,
depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente,
advertência do futuro.”


1 comentários:
"Se um viajante numa noite de Inverno", de I. Calvino é para poucos. Difícil de encontrar, difícil quem o procure. É para poucos mesmo. Saramago é sempre mestre e Borges eloquente. Deixo 3 dicas geniais para vc: "Meu Último Suspiro", de Luís Bunuel; Romam de Polanski (autobiográfico); Jesus Cristo (Joseph Ratzinger - nao é religioso, é uma obra prima histórica que a crítica mundial está reverenciando e se rendeu a ele). Os dois primeiros sao difíceis de encontrar. Estao(estavam) esgotados. O último foi traduzido para o Português recentemente. Ah, e ainda tem o genial "A Condicao Judaica", do Moacir Scliar, que trata do tema de forma genial. Também nao é religioso, mas fala do cotidiano judeu. Todos: imperdíveis!
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