"Perdoem-me os pais que se queixam de que os filhos são um fardo, de que faltam tempo, dinheiro, paciência. Receio que o fardo, o obstáculo e o estorvo a um crescimento saudável dos filhos sejam eles".
O bebê humano, dado a estreitíssima relação do diâmetro de seu crânio (inteligência) com a bacia da mãe (de bípede), é o bebê mais "prematuro" da natureza. Parece-me que é o único que não sai andando depois que nasce... Daí, que nos primeiros meses, essa “simbiose“ com a mãe é quase mesmo como o que acontece com os cangurus! Não há o que substitua o ninho com os pais e o leite da mãe para um bebê. Há uma relação de dependência tão saudável quanto é saudável a gravidez.
Às vezes, o que é difícil aceitar, principalmente na nossa cultura, é que a vinda de um filho modifique o curso da vida de uma mulher/casal. Não dá pra levar um bebê de poucos meses aos barzinhos do tempo de namoro... e muitas vezes o desmame vem em função de ter que manter o ritmo pré-família. Há alterações inerentes à nova fase de maternidade/paternidade (por isso o parto é um importante ritual de passagem, pelo qual tanto se luta hoje para passar por ele "sem sentir nada" - pula-se um evento extremamente necessário ao vínculo e ao sentido de "ter um filho"; e amamentar é outro ritual importante).
Penso que a questão é: separar bem o que é exigência da nossa fisiologia e o que é exigência da nossa cultura e que cada um encontre seu caminho ótimo, sem querer impor seu caminho ótimo à diversidade humana. Mostrar possibilidades leva ao crescimento, determinar certos e errados leva à massificação e à apatia.
Ah, sem dúvida, amamentação prolongada não é garantia de nada, a vida de qualquer criança será definida por infinitas variáveis e ter sido ou não amamentado, muito ou pouco amamentado, será apenas uma dessas variáveis.
Agora, relacionamentos patológicos existem o tempo todo, materializado em infinitas formas e dentre eles, vejo uma patologia cultural, enraizada em nosso inconsciente coletivo, de que terceirizar a função de mãe é "OK", é moderno, é vanguarda. Terceiriza-se o parto ao obstetra (cesárea), a amamentação ao leite em pó + mamadeira + chupeta e a educação dos filhos a babás, ao psicólogo e à própria escola. Só não terceirizamos a gravidez para mecanismos extracorpo porque ainda não há tecnologia que o permita. Para mim, há uma patologia coletiva a ser curada, a que leva as mulheres a valorizar sua maternidade de acordo com o tanto que sua vida permanece igual à de antes: o corpo de antes, os programas de antes, o silêncio de antes, a independência de antes. Maternidade exige dedicação. Amor não é alguma coisa que a gente sente em troca de filhos quietinhos, sorridentes, perfumados e bonzinhos, trazidos a nós por alguém que cuidou de deixá-los assim. Amor é alguma coisa que nos dispõe a lidar com as necessidades do nosso bebê, da nossa criança - e com o maior prazer do mundo. Mamar é uma dessas necessidades, e fisiológica.
Há, sim, muito preconceito e muitas decisões sendo tomadas por inércia cultural, por senso comum. A nossa natureza mamífera está tão esquecida que há quem se choque quando tem esta afirmativa diante dos olhos: somos mamíferos.
Ainda vivemos os ecos dessa onda que uma mulher possa não ter leite é uma crença arraigada que compromete a sexualidade, que enfeia, que cria dependência. Ter consciência de que amamentação é natural dá à mulher a opção de escolher. Sim, porque não devemos absolutamente condenar quem opta por não amamentar, ou por interromper o processo onde melhor lhe convier. O importante, a meu ver, é que esta opção venha de dentro dessa mulher, do confronto de informações com seu modo de vida, que não venha de fora. Que ela não deixe de amamentar porque, inconscientemente, a indústria de leite em pó lhe diz para preferir seus produtos, através de uma mídia que faz a mãe, a sogra, a vizinha, o marido, o médico, de canais de comunicação dizendo que ela não tem leite; se tem, não suficiente; se é suficiente, não é forte o bastante.
Outra idéia é que nossa cultura se choca mais com uma criança grande mamando na mãe do que um RN recebendo alimentação artificial por mamadeira. As crianças já aprendem assim, né? As bonecas vêm com o kit mamadeira, chupeta, tal. Por isso acho lindo a criança brincando de amamentar - precisamos dar esse espelho.
Autora: Roselene (retirado da PR)
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