Ando bem saudosista ultimamente. Tenho lembrado de coisas de Pinda, de infância, de pessoas, músicas...
Tive uma tia incrível, brincalhona, bem humorada, engraçada, amorosa. Me chamava de perereca, e me dá uma saudade danada quando eu me lembro dela e penso que não vou mais vê-la. Ela está sempre comigo.
Tenho também amigas que estão meio longe, um longe que não é tão longe mas que impede que a gente se veja sempre que quiser. E aí ficam também as memórias. Em Pinda tinha um bar, que funcionou por pouquíssimo tempo, e ficava no meio do nada. Mas era bom. Não tinha nada de especial. Uma área coberta, com mesas e cadeiras, e uma área que parecia uma garagem, onde rolavam uns rocks. Dava pra ficar ali bebendo a noite toda, com os amigos, curtindo um som, papeando sobre besteira. Era muito bom.
Pinda é engraçada. Não tem muita coisa bacana, mas quando algo bom aparece, é bom mesmo. No último carnaval, montaram uma tenda num lugar bem pouco provável, e todas as noites eram uma festa. Mas o legal mesmo era quando juntava o povo da matiné, mais família, com o pessoal da noite. Ficava uma coisa meio heterogênea e acho que por isso era legal. Por exemplo, enquanto a banda tocava uns roques (é, rock no carnaval) uma criançada subia no palco e ficava ali brincando, pulando, sentando perto da caixa de som. Foi uma coisa até meio surrealista; até hoje não sei se foi algo espontâneo ou algum número.
Da saudade e das memórias que tenho da minha família e das minhas amigas, nem falo nada.
Hum, a TV está ligada do meu lado e acabou de passar o show que os Rolling Stones fizeram em Copacabana em 2006. Outro dia que eu não esqueço, principalmente porque não foi aquela coisa de pegar o carro, chegar lá, entrar no show e depois ir embora. Não. Foi aquela coisa de subir num ônibus um dia antes, de galera, aguentar 9 horas de viagem, com serviço de bordo medíocre. Várias paradas. Começar o dia já em Copacabana, passar o dia todo naquele clima, esperando o show, esquecendo da vida, sentada num calçadão, no meio do povo, conhecendo gente diferente, fazendo um som de roda, indo pro mar, cozendo na areia. Tomando cerveja o dia todo e vendo os camelôs passando na areia e vendendo de tudo (a gente até brincou que, mesmo antes do show, eles já deviam ter o dvd Rolling Stones em Copacabana). Foi bem legal mesmo.
Minhas memórias tem muito a ver com músicas (como acontece com muita gente). Sempre gostei de relacionar meus momentos com músicas, e de relacioná-las entre si. Sempre fui de montar fitinhas com várias canções diferentes, pra ouvir no quarto, quando eu era adolescente e gostava de enfurnar pra ler algum livro ou escrever besteiras.
Hoje meus cds tocam principalmente no carro, no caminho da creche do meu filho até o meu trabalho. Deixo meu Pierrote, aumento o volume e aí é meia hora de Chico Buarque (Cotidiano), Neil Young (Harvest Moon - maravilhosa), The Band (Ophelia), Nina Simone (I wish I knew how it would be to be free), Buddy Holly (That'll be the Day), Ney Matogrosso e Plap (A Ordem é Samba), Amy Winehuse (You Know that I'm no Good), Buddy Rich (The Beat Goes On), e até Manuel Bandeira recitando Belo Belo eu ouço enquanto dirijo. E já posso prever que, daqui a uns anos, quando eu ficar saudosista de novo e me lembrar dessa época em que estou e do meu atual emprego, essas músicas e o Belo Belo serão umas das minhas melhores memórias.
Belo Belo
Manuel Bandeira
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo -que foi? passou- de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
-Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
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1 comentários:
Olá amiga... tambem fiquei nostalgiosa com esse seu texto... puxa, e por falar em copacabana, lembra do falcão? e pensar que eu podia agora estar morando em qualquer lugar do país encerando os dreds dele, kkkkkkkkkkk... oportunidade é assim, ou pega ou perde, rs... saudade de ti também, muita muita... vou acabar indo praí num feriado desses... besos
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