O anúncio fazia parte da nova campanha da marca de roupas Diesel, chamada "Live Fast", vida acelerada, ou que quer que seja. A imagem mostra uma modelo correndo, de salto, enquanto joga talco no bumbum de um bebê.

É claro que a primeira idéia que me veio à cabeça quando vi aquilo foi de repúdio, afinal estou tão acostumada a cuidar de uma criança pequena, que sei que é necessário ter tempo, atenção e cuidado pra lidar com um bebê. Há um ano e meio que faço isso. Depois de um tempo, pensei: ora, talvez eu esteja pensando de modo errado, talvez essa campanha tenha a boa intenção de criticar nossos valores atuais e nossos hábitos diários de estar sempre correndo contra o tempo, fazendo tudo apressadamente. Porque, de fato, o mundo gira cada vez mais rápida e vertiginosamente, num movimento que não nos possibilita pensar, refletir, fruir (esse é, a meu ver, um dos piores aspectos da vida moderna, e por isso sempre fui simpatizante das idéias do chamado Slow Movement). Nesse sentido, meio que concordo com a idéia dessa peça publicitária.
Mas, pensando bem, isso não dá merito à Diesel. Isso não tira o valor negativo da sua propaganda. A marca pode ter a melhor intenção do mundo (e de boas intenções o inferno está cheio), que o anúncio continua sendo grosseiro, causa repúdio (ao menos em quem tem filhos e sabe que cuidar deles dispende tempo, carinho e afeto - o que em nada lembra a modelo correndo e enchendo a criança de talco). Sem contar que uma imagem dessa corre o risco de ter um efeito contrário: incentivar essa cultura da velocidade em certas pessoas (por incrível que pareça, tem gente que olha pro anúncio e acha bonito). É o mesmo tipo de efeito inverso que aconteceu, por exemplo, com o filme "Tropa de Elite", que alegou ter a boa intenção de denunciar problemas sociais mas acabou gerando um certo culto à violência em meio às crianças (no último Carnaval uma das fantasias mais vendidas para os pequenininhos era de colete do Bope).
Enfim, acho que um anúncio desse não se publica nem com a melhor das intenções. Acredito que os meios de comunicação e os criadores de campanhas publicitárias deviam estar mais cientes de suas responsabilidades frente ao seu público final. De uns tempos pra cá já vi anúncios com forte carga racista e outros claramente machistas. Todos de grandes marcas de roupas e acessórios eletrônicos. E em todos os casos os criadores e responsáveis pelas marcas alegam não terem tido a intenção de desrespeitarem o negro ou a mulher. Pois acho que essas pessoas deveriam pensar um pouco mais antes de "criarem" e conhecerem um pouco mais de, por exemplo, Antonioni, que mostrou no cinema que imagem sem política não é imagem no final das contas.
Ah, e pra terminar: talco faz um tremendo mal para os pulmões de bebês e crianças. Não sei como ainda tem gente que usa isso.
Outros exemplos de publicações grotescas:

Racista?

Machista?
Um ps importante
Em tempos em que as mulheres são amarradas em editoriais de moda, parece que nem o meio intelectual se salvou: até a foto clássica da Simone de Beauvoir (pois é, logo ela) foi photoshopada. Para uma publicação francesa que comemorava os 100 anos da mulher que escreveu O Segundo Sexo. A situação tá feia mesmo.


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