domingo, 16 de dezembro de 2007

Diferença

Se já é complicado aceitar a diferença (mesmo sendo ela que me define, em cada pequeno detalhe que me compõe), ter interesse pelo que não me é habitual fica ainda mais complicado. Mas, uma vez abalada a velha e cômoda resignação ao meu pequeno mundinho, fica uma beleza experimentar o diferente.
Lembro de anos atrás, quando entrava numa megastore da vida pra procurar cds: tinha lá no final uma prateleira de “Música do Mundo”. O conceito era bonito, mas e eu com isso? Eu não tinha interesse algum. Estava tão preocupada em achar um Rolling Stone raro ou aquele Who que eu procurava há tanto tempo, que simplesmente não conseguia parar um minuto pra gastar com cubanos, indianos, poloneses, mexicanos, árabes... Estavam fora da minha cabeça.
Não sei quando isso mudou. Não houve um tilt, uma fagulha, um insight. Acho que foi bem aos poucos. E agora, não tiro da cabeça certas imagens, cenas, discursos que nada têm a ver com o mundo que se vê em peças publicitárias, TV, revistas, jornais, vitrines. Aliás, essas últimas coisas é que soam estranhas. Até um velho casal em um carro esporte conversível e todo vermelho me parece absurdo (principalmente quando eles mal conseguem estacionar sua banheira). Uma mulher que injeta botox sob a própria pele para evitar algo que é fatídico e pelo qual todo mortal passa, isso também soa estranho (mais estranho do que uma mulher que usa burca, que não envolve cortes e injeções).
Tudo isso me lembra coisas como O Estrangeiro, de Camus, uma das coisas mais reveladoras que já li. Me vem à cabeça o Paradise Now, filme que mostra as razões e os porquês de um homem-bomba.

A vida não vale nada sem dignidade. Principalmente quando ela te lembra, dia após dia, da humilhação e fraqueza. E o mundo assiste a tudo, covardemente, indiferentemente.”

Lembro também de um diálogo de Edukators:

- Feliz? Acha que as pessoas são felizes, Hardenberg? Abra os olhos. Saia do seu carro… E ande pelas ruas! Elas parecem felizes ou animais assustados? Veja as salas de estar. Todo mundo olhando para a TV. Ouvindo zumbis chiques falarem sobre uma felicidade perdida. Ande pela cidade. Verá a sujidade, a superpopulação…
As massas como robôs nas escadas rolantes dos shopping centers. Ninguém conhece ninguém. E todos acham que a felicidade está ao alcance… Mas ela é inalcançável, porque você roubou-a. A vida é assim. Você sabe muito bem.
Mas tenho uma notícia para você, executivo. A máquina superaqueceu.
Somos só os precursores. A sua época está para acabar. Enquanto você navega na tecnologia, outros sentem ódio. Como as crianças das favelas que vêm filmes de acção americanos. E isto é só o começo. Haverá mais. Mais casos de insanidade… Assassinos, almas destruídas, violência gratuita. Não pode sedar o mundo inteiro com jogos e shopping centers… E os antidepressivos não vão funcionar para sempre.
O povo está cansado da merda do seu sistema.
- Admito que há alguma verdade no que disse… Mas sou o bode expiatório errado. Eu jogo o jogo, mas não fui eu quem fez as regras.
- Não importa quem inventou a arma, mas sim quem puxa o gatilho.


Lembro, voltando a 2000, do dia em que prestei vestibular. Olhei para a proposta de redação que pedia que eu dissertasse algo sobre barreiras, e eu não sabia o que escrever. Lembro de todos os estrangeiros que já conheci, chineses, dinamarqueses, franceses, americanos, indianos, argentinos, e lembro que todos foram gente fina e me respeitaram (principalmente os chineses e os indianos). Lembro de um texto que atacava a Coca-Cola de querer que o mundo todo fosse uma coisa só... “Quando vemos uma garrafa de Coca-Cola, tão doce e amigável, em cada esquina do mundo todo, parece até que o mundo nem é tão grande afinal de contas”. Lembro do mito de Babel que coloca a diferença como um castigo, já que um deus furioso com seus mortais decidiu castigá-los impossibilitando-os de falar a mesma língua.
Babel, Coca-Cola, estrangeiros, Paradise Now, Edukators, Camus, barreiras, shopping centers, TV, jornais, Iraque, Diane Arbus e seu interesse pelo “estranho”. É uma pena que a gigantesca maioria das pessoas não perceba a forte ligação entre tudo isso.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Nada é real



O Bob Dylan tem sorte. Ou controle sobre o que se publica sobre ele, sei lá. Mas o fato é que tenho visto umas coisas bem interessantes surgindo por aí, biografias, documentários, vídeos. Teve o No Direction Home, documentário feito pelo Martin Scorcese (que, aliás, fez também um outro sobre os Stones, que eu preciso ver). Agora, em 2007, foi o lançamento do I'm not There, que parece ser uma coisa louca e muito boa, com vários atores interpretando Dylan, cada um encarregado de uma faceta.

Hoje, encontrei no youtube esse vídeo, que é tipo um remix (embora eu tenha pavor de remixes, esse até que vai) de uma música que é das minhas favoritas. Sem contar que o vídeo em si é muito bacana mesmo, construindo uma linha biográfica interessante.



Na minha opinião são todos ótimos materiais, principalmente por não se pretenderem "detentores da verdade", apesar de se tratarem de gêneros que se apóiam em fatos reais (documentário, biografia, cinebiografia). Todos eles conseguem contar histórias sobre Bob Dylan sem se comprometerem com a "realidade dos fatos", como ele próprio fazia enquanto construía sua persona.

No Direction Home no youtube
Trailer de I'm not There
Crítica e resumo de I'm not There, no O Globo

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007


Tempinho de chuva é uma delícia. Tudo bem, é um pé no saco não poder sair de casa, mas é bom poder se enfurnar um pouco, ou fazer uma arrumação interna (na casa ou na gente mesmo, entenda como quiser). Ajeitar os livros, os cds, os dvds. Ver um filminho bacana, arrumar árvore de Natal. Ler tudo o que está na fila do "leio-quando-eu-tiver-tempo-livre".
Combina com esse tempo o cd Acidulé, da Marina Celeste. É ótimo, tem aquele tom de bossa nova que a Bebel Gilberto também usa, só que em francês. Bem leve, bom pra dar uma desligada de tudo. Aqui, uma mostra: Samba Saravah (versão francesa de Samba da Bênção, de Vinicius de Moraes) misturado com cenas do filme Un Homme et une Femme, de 1966.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Quando a gente pensa que já viu todas as atrocidades possíveis, fica sabendo de um caso como o dos presos de uma delegacia de Santa Catarina, onde eram acorrentados a pilares e assim ficavam por longo tempo. De acordo com a delegada da unidade, isso se deve ao fato de não haver espaço nas celas: "Ou eu acorrento ou solto os presos. Levar pra casa é que não vou".

O pior é que amanhã não se falará mais disso. Já se falou muito do João Hélio, dias atrás falavam da garota de 15 anos presa com não-sei-quantos homens. Hoje são esses homens em Santa Catarina. Amanhã tudo vai estar esquecido.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

“Isso é gente má (...). Essas pessoas não compartilham os mesmos valores que você e eu.”
George Bush, em referência aos prisioneiros na base de Guantanamo.

“George Bush está certo quando diz que não temos os mesmos valores.”
Ruhel Ahmed, inglês preso por dois anos e meio em Guantanamo, sem qualquer acusação por parte do governo norte-americano.


Dia desses sentei no sofá de casa para assistir ao Caminho para Guantanamo, filme de 2006. Depois de cinco minutos, fiquei estarrecida. Aquilo me pegou de surpresa. Eu não sabia do que se passava (e o que é pior, ainda se passa) na base militar de Guantanamo, construída pelos EUA para aprisionar suspeitos de ações terroristas, após o 11/9. Eu não imaginava nada daquilo, e não entendia como uma coisa dessas existe até hoje e com uma divulgação tão pequena.

Lembrei do 11/7. Antes mesmo de saber do que realmente se tratava, as imagens das duas torres já corriam boa parte do mundo. Li em algum lugar (nunca me lembro ode leio essas coisas... essa é a era da informação) que o atentado de 11/9 inaugurou a pós-modernidade. Começo a concordar. Acho que nunca ficou tão claro como a realidade é construída a partir de imagens (e o Osama já sabia disso). E de Guantanamo pouca gente sabe. Os abusos que acontecem lá dentro, com o consentimento de outros governos e de órgãos que deveriam, supostamente, defender a dignidade e os direitos humanos dos presos.

O que torna o filme bom, a meu ver, é justamente o impacto que ele causa. É sua capacidade de ser perturbador. E o que faz esse filme tão perturbador é o fato de sabermos que os abusos ainda acontecem, e que ainda há 500 pessoas presas injustamente em Guantanamo.

Ah, e se alguém conseguir encontrar o filme para assistir, atente ao final. É muito bonito.

Resumo e crítica do filme

Trailler

Entrevista em espanhol com ex-detentos da base militar de Guantanamo




domingo, 2 de dezembro de 2007

Cupa Frida


''Querem que eu retrate cinco mulheres mexicanas importantes em nossa história; faço pesquisas para saber que tipo de baratas foram essas heroínas, que tipo de psicologia era o seu fardo, a fim de, ao pintá-las, as pessoas possam diferenciá-las das mulheres comuns e vulgares do México, as quais, para mim, são mais interessantes e poderosas do que as damas mencionadas.''