“Todos têm a obrigação de viver de forma literária”.
Na última vez que meus olhos se encheram de lágrimas, eu dirigia do trabalho pra casa, ouvindo “I want a little suggar in my bowl”, da Nina Simone, cantando bem baixo, e lembrando da frase que encabeça este texto. Era uma citação de Nietzsche, feita pela professora do curso de Teoria da Tradução.
Pode parecer a coisa mais piegas e naïf do mundo, mas para mim o lamento da Nina Simone tem tudo a ver com o meu estado de espírito depois de ouvir a frase do Nietzsche. Não tem jeito: todos precisamos açucarar um pouco o nosso cotidiano, que virou uma coisa tão automática e tão chata nos dias de hoje. É preciso deixar essa realidade um pouco mais suggar-coated, ou então terminamos doidos, como o próprio Nietzsche, batendo a cabeça na parede.
Agora, a forma como se adoça a vida já vai do gosto de cada um. Pode-se comprar coisas inúteis e receber promoções no trabalho (mas para mim isso não é açúcar, e sim adoçante daqueles bem amargos, que não enganam a ninguém). Pode-se escolher ter uma fé, pode-se cair de cabeça em baladas, em novelas, em psicólogos, em comida. Eu pessoalmente prefiro a opção dada pelo Nietzsche: viver de forma literária, entendendo que tudo se trata de um mundo que foi criado, detalhe a detalhe, laboriosamente. Minha vida não acontece em um mundo que já estava aqui antes de eu nascer. Ao contrário, esse mundo só acontece porque eu existo, porque eu o vejo, o respiro, o sinto pelas narinas, pelos ouvidos, pelos poros. É um mundo que foi criado por outros, mas que só eu registro. Assim como os outros também têm seus mundos particulares, seus modos de ver e interpretar tudo o que acontece à nossa volta.
O real não existe. O que achamos que é real é, segundo Nietzsche, uma construção feita a partir de todos os nossos diferentes pontos-de-vista, que cria um mundo que a sábia tradição ocidental convencionou acreditar que existe em essência. Ou seja, a vida nada mais é do que pura ficção e, o que nos resta fazer é encarar isso como algo desolador e enlouquecer de vez, ou viver essa ficção de forma literária, criando jogos e relações de sentido, criando significado, imagens e transformando tudo isso numa brincadeira muito, muito interessante.
Eu tento adoçar a vida como Nina Simone.
PS: E por falar em adoçar a vida tornando-a um pouco mais literária, lembro agora do coitado do Freud, que a vida toda tentou ser reconhecido como cientista e fazer da Psicanálise uma ciência com C maiúsculo, e que foi agraciado justamente com o Prêmio Goethe de Literatura. Parece que, ironicamente, a vida de Freud foi adoçada contra a sua própria vontade.
:: I Want a Little Suggar in my Bowl
I want a little sugar
in my bowl
I want a little sweetness
down in my soul
I could stand some lovin'
Oh so bad
I feel so funny and I feel so sad
I want a little steam
on my clothes
Maybe I can fix things up
so they'll go
Whatsa matter Daddy
Come on, save my soul
I need some sugar in my bowl
I ain't foolin'
I want some sugar in my bowl
You been acting different
I've been told
Soothe me
I want some sugar in my bowl
I want some steam
on my clothes
Maybe I can fix things up so they'll go
Whatsa matter Daddy
Come on save my soul
I want some sugar in my bowl
I ain't foolin'
I want some - yeah - in my bowl.
sábado, 5 de dezembro de 2009
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Mexicanas

We are the porous rock in the stone metate
squatting on the ground.
We are the rolling pin, el maíz y agua,
la masa harina. Somos el amasijo.
Somos lo molido en el metate.
We are the comal sizzling hot,
the hot tortilla, the hungry mouth.
We are the coarse rock.
We are the grinding motion,
the mixed potion, somos el molcajete.
We are the pestle, the comino, ajo, pimienta.
We are the chile colorado,
the green shoot that cracks the rock.
We will abide.
(Gloria Anzaldúa, Borderlands/La Frontera)
O México morre por excesso de amor pela vida. Não a compreendeu e a estragou. O poder fincou-se na ignorância e na mentira, os preconceitos servem como amplo abrigo para o povo. Os dois adormeceram, um em seu poncho e o outro sobre sua espada jorrando sangue.
(H. Remy, Terra Caliente)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Férias
Se eu pudesse, eu moraria atrás dessas vidraças, de onde só se avista o mar e os pesqueiros. De onde posso sair sob um sol morno e entrar no mar, para me sentir uma invasora no mundo que é só de peixes e aves, e siris e outros animais que eu nem sei nomear. Vidraças onde posso ficar protegida da chuva, vendo a areia correr com a água, prestando a atenção ao trabalho dos pescadores (que resistem à chuva, porque quem trabalha com água não a teme, venha ela de baixo ou de cima) e perdendo de vista a linha do horizonte, que dá lugar a uma coisa só, embaçada, que é ao mesmo tempo céu e mar.
Via revolucionária

Revolutionary Road
Não sei se foi por causa de uma certa TPM ou se o filme mexeu comigo mesmo, mas o fato é que chorei horrores, sozinha, tarde da noite, assistindo ao Revolutionary Road, que aqui no Brasil levou o nome de Foi Apenas Um Sonho (já entregando o final do filme, embora eu não ache isso tão ruim).
Eu, como fã da Kate Winslet, já tinha assistido o The Reader, e achei um filme bom e sério. Imaginava que o Revolutionary Road iria por um caminho mais leve, mais “suggar-coated”... Ora, eu estava muito enganada e não esperava um filme tão sério e ao mesmo tempo tão sutil. Enquanto o The Reader trata da questão do antisemitismo, por um viés bem interessante, o Revolutionary Road trata de um assunto muito mais cotidiano, muito mais enraizado no dia a dia das sociedades burguesas, e ao mesmo tempo tão sério quanto a questão do antisemitismo, mas muito menos abordado na mídia: a estrutura familiar.
Basicamente, Revolutionary Road narra o cotidiano de uma família que, para fugir do conformismo e dos costumes burgueses, resolve fazer planos mirabolantes de se mudar para Paris, plano que inverteria toda a lógica de funcionamento do que se entende como família e da estrutura básica familiar, que sempre foi amparada pelo machismo e pela exploração da mulher. Enquanto os planos da família estão de pé, tudo corre bem: a esposa (Kate Winslet) se sente feliz, o marido (Leonardo Di Caprio) recebe promoções no trabalho, as crianças ficam felizes. No entanto, aos poucos os planos vão se desfazendo e... bem, acho que não é bom seguir contando a historia, pois mesmo que eu não preze tanto o mistério do final dos filmes, tem gente por aí que preza. Fica aí então a lacuna.
De qualquer forma, o filme rende umas boas catarses e lágrimas, principalmente quando se é mulher, filha, mãe, funcionária, esposa. O filme deixa bem claro, de forma sutil, que há algo de podre, algo que não funciona bem dentro da lógica e da estrutura familiar pequeno-burguesa. Conformismo diante da infelicidade em um emprego sem-graça. Desconforto diante da imobilidade que a mulher sente quando está fadada a cumprir o papel de mãe e de esposa. A preocupação de seguir o modelo patriarcal que foi instituído há anos e que perdura até hoje. Aceitação, por parte da mulher, do destino (palavra bonita para função instituída) que lhe foi reservado: servir ao marido e criar os filhos.
É claro que, no filme, esses caminhos pelos quais a mulher é obrigada a trilhar são muito menos flexíveis do que hoje em dia (o filme se passa na década de 50, Estados Unidos). Hoje, com alguns avanços na luta feminista, a mulher consegue ter um pouco mais de escolha diante dos caminhos que se apresentam a ela. Mas a escolha ainda é muito estreita, as alternativas são poucas e as consequências dessas escolhas são muito severas. A frase de Simone de Beauvoir ainda vale para os dias de hoje: “Não se nasce mulher; torna-se...”.
Ah, e a última cena é genial e cortante. Me deu calafrios e me senti muito mal, não só pelos personagens da trama, mas pelas mulheres em geral, pelas que eu já conheci, pelas que são minhas amigas, pelas não são minhas amigas, pelas que escreveram e lutaram, pelas que resistem nos lares, pelas que trabalham em empresas e prostíbulos e pelas que cuidam de seus filhos.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Cienfuegos vive!
Flores ao mar para Camilo Cienfuegos.

Camilo Cienfuegos Gorriarán (6 de Fevereiro de 1932 - 28 de Outubro de 1959) foi um revolucionário cubano, nascido em Calabazar de Sagua. Participou de atividades clandestinas contra o ditador de Cuba Fulgencio_Batista e foi um importante protagonista da Revolução Cubana. Ao lado de Fidel Castro, Che Guevara e Raúl Castro, Camilo era um dos principais líderes da Revolução.
Morreu vítima de um acidente de avião. Durante um voô de Camaguey à Havana, o avião de Camilo desapareceu no oceano, o que causou grande impacto em toda a população, que durante vários dias procurou algum vestígio do líder guerrilheiro, sem obter sucesso.
Rapidamente, Cienfuegos se tornou um dos mártires da revolução. Prova disso é que todo dia 28 de Outubro, as crianças cubanas jogam flores ao mar, em sua homenagem.
Che Guevara, que se tornou um dos seus grandes amigos, dedicou a ele seu livro, "Guerra de Guerrilhas".

Camilo Cienfuegos Gorriarán (6 de Fevereiro de 1932 - 28 de Outubro de 1959) foi um revolucionário cubano, nascido em Calabazar de Sagua. Participou de atividades clandestinas contra o ditador de Cuba Fulgencio_Batista e foi um importante protagonista da Revolução Cubana. Ao lado de Fidel Castro, Che Guevara e Raúl Castro, Camilo era um dos principais líderes da Revolução.
Morreu vítima de um acidente de avião. Durante um voô de Camaguey à Havana, o avião de Camilo desapareceu no oceano, o que causou grande impacto em toda a população, que durante vários dias procurou algum vestígio do líder guerrilheiro, sem obter sucesso.
Rapidamente, Cienfuegos se tornou um dos mártires da revolução. Prova disso é que todo dia 28 de Outubro, as crianças cubanas jogam flores ao mar, em sua homenagem.
Che Guevara, que se tornou um dos seus grandes amigos, dedicou a ele seu livro, "Guerra de Guerrilhas".
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
apesar de minha resistência a certas tecnologias ser bastante alta (desisiti de ter celular, faço meu café jogando eu mesma a água fervente no pó e prefiro mil vezes uma TV a um computador), não sou daqueles que veem a Internet como coisa do capeta. Acho que, juntamente com o evento de 11/09, a Internet (ficando claro que me refiro à web 2.0) está instaurando mudanças muito muito significativas. Mais do que imaginamos.
o Did you know? é só um vídeo de impacto, nada demais... mas as informações que eles carregam dão uma boa medida de em que ponto está a parte do mundo que tem acesso a essas modernas ferramentas tecnológicas ("parte do mundo" porque, quando se fala de Internet, parece até uma coisa homogênea e global... mas a inclusão digital tá longe de ser algo realmente efetivo).
****************
Saramago blogueiro
Ah, Saramago, se você tivesse me dito que era tão bom blogueiro, eu tinha lido seus livros antes...
http://caderno.josesaramago.org/
****************
"E como já dizia Galileu, isso é que é amor"
Jorge Ben à l'Olympia é uma das melhores coisas que já baixei. O disco original é o registro que o Jorge Ben fez no Olympia em 1975. Muito muito bom.

o link pra baixar e sair sambando: http://sharebee.com/fe0cca01
o Did you know? é só um vídeo de impacto, nada demais... mas as informações que eles carregam dão uma boa medida de em que ponto está a parte do mundo que tem acesso a essas modernas ferramentas tecnológicas ("parte do mundo" porque, quando se fala de Internet, parece até uma coisa homogênea e global... mas a inclusão digital tá longe de ser algo realmente efetivo).
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Saramago blogueiro
Ah, Saramago, se você tivesse me dito que era tão bom blogueiro, eu tinha lido seus livros antes...
http://caderno.josesaramago.org/
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"E como já dizia Galileu, isso é que é amor"
Jorge Ben à l'Olympia é uma das melhores coisas que já baixei. O disco original é o registro que o Jorge Ben fez no Olympia em 1975. Muito muito bom.
o link pra baixar e sair sambando: http://sharebee.com/fe0cca01
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